Pedro Sánchez decidiu devolver a palavra aos espanhóis. Ao convocar eleições gerais antecipadas para 29 de novembro, depois de o Congresso ter chumbado as medidas do Governo para responder à crise da habitação, o primeiro-ministro espanhol assume que já não dispõe de condições políticas para prolongar uma legislatura marcada pela aritmética instável, por alianças cada vez mais difíceis e por uma contestação social que deixou de poder ser tratada como um mero incómodo passageiro.
A habitação foi o gatilho imediato. Mas não é a única causa, nem talvez a mais profunda. Espanha vive há demasiado tempo com salários que não acompanham o preço das casas, rendas incomportáveis nas grandes cidades, jovens afastados da emancipação e famílias que percebem que trabalham mais sem conseguirem viver melhor. O despejo de Maricarmen, uma idosa de 87 anos em Madrid, que se tornou símbolo da revolta recente, ajudou a dar rosto humano a uma crise que os números já revelavam há muito.
O Governo respondeu com decretos que incluíam travões aos despejos e medidas sobre contratos de arrendamento. Mas os diplomas foram derrotados pela convergência entre PP, Vox e Junts. A derrota parlamentar confirmou algo que Sánchez sabia: governar sem maioria é uma tarefa possível; governar sem margem política, sem parceiros fiáveis e com a contestação a crescer na rua é outra coisa.
A antecipação eleitoral é, por isso, uma tentativa de transformar uma derrota parlamentar numa escolha de regime político. Sánchez quer que a campanha se faça em torno da habitação, da defesa do Estado social e do risco de uma maioria de direita apoiada ou integrada pela extrema-direita. É uma aposta arriscada, mas coerente com o seu percurso: quando parece politicamente encurralado, o líder socialista procura recuperar iniciativa e mobilizar o eleitorado progressista.
Só que o problema do Governo não se limita à habitação. A legislatura foi desgastada pela fragmentação da esquerda, pela dependência dos partidos independentistas catalães, pela polémica em torno da amnistia, pela pressão migratória e por casos e investigações que alimentaram uma perceção de erosão ética do poder. Mesmo quando o Executivo conseguiu apresentar resultados económicos ou políticas sociais relevantes, a imagem pública foi sendo dominada por uma sensação de precariedade política.
Do outro lado está Alberto Núñez Feijóo. O líder do PP recebe estas eleições como a oportunidade que esperava desde 2023. A sua mensagem será simples: Espanha precisa de estabilidade, mudança e uma governação menos dependente de acordos parlamentares frágeis. Na habitação, os populares insistem que a resposta não está no controlo administrativo das rendas, mas no aumento forte da construção, na simplificação de licenças, na mobilização de solo e em incentivos fiscais.
É uma posição politicamente clara, mas que será testada pela realidade. Não basta prometer mais casas: será preciso explicar quem as constrói, para quem e a que preço. A crise da habitação não se resolve apenas com discursos contra Sánchez, nem com a ideia de que o mercado corrigirá sozinho uma desigualdade que se agravou durante anos.
A grande questão da campanha, porém, será Vox. Santiago Abascal chega ao 29 de novembro numa posição de força e já deixou as suas condições para um eventual entendimento com o PP: prioridade nacional, desregulação económica e uma política de “remigração”. Esta última expressão não é um detalhe semântico. Representa uma visão mais dura sobre imigração, identidade e pertença nacional, que coloca Feijóo perante uma escolha difícil: procurar uma maioria suficiente sem Vox ou aceitar que o preço da chegada ao poder pode ser a influência decisiva da extrema-direita no próximo Governo espanhol.
O PP sabe que não pode ignorar Vox; Vox sabe que o PP poderá precisar dele. Mas uma coisa é a negociação parlamentar, outra é normalizar uma agenda política que procura transformar a imigração no centro de todos os males de Espanha. A direita democrática espanhola terá de mostrar que consegue responder às inquietações reais dos cidadãos - segurança, habitação, custo de vida, pressão sobre os serviços públicos - sem cair na simplificação, no ressentimento ou na divisão do país entre espanhóis de primeira e de segunda.
Também à esquerda se exige mais do que o medo de Vox. O PSOE e os seus aliados terão de explicar por que razão, apesar de anos no poder, a habitação se tornou uma urgência nacional e por que motivo tantas pessoas sentem que o crescimento económico não chegou à sua vida quotidiana. A esquerda não pode pedir mobilização apenas contra o que está do outro lado; terá de apresentar respostas concretas para o que falhou deste lado.
O 29 de novembro será uma escolha sobre governos. Mas será, acima de tudo, uma escolha sobre o tipo de democracia que Espanha quer ser.