Se atendermos ao clima jornalístico que se seguiu à vitória da direita brasileira nas eleições de 4 de Outubro, ao ambiente de choroso velório de alguns painéis televisivos e à disposição pré-insurrecional de alguns pequenos caudilhos, é possível que, no fim de Novembro, com as legislativas espanholas, venhamos a assistir a outras enxurradas.
Para a campanha da segunda volta, os partidários de Lula vão jogar a carta “nacionalista”, tentando criar a ideia de que Bolsonaro é um lacaio do trumpismo e que o Brasil vai ser o quintal de Washington.
Não me parece que vão ter muita sorte, mas nunca se sabe. É que a esquerda globalista e alinhada com os mercados sem fronteiras anda agora a pescar nas agitadas e ignotas águas do nacionalismo e a repescar nas águas paradas da justiça social, de que tinha andado arredada. Burnham fê-lo em Inglaterra.
Num momento em que as sondagens dão maioria aos partidos de centro-direita e da direita nacional e popular, Sánchez quer eleições antecipadas, talvez porque a contabilização dos eleitores, fazendo-se agora, lhe seja mais favorável (já que abrange ainda um universo eleitoral anterior à suspensão cautelar pelo Tribunal Supremo da Espanha de uma disposição da Lei da Memória Democrática que veio aumentar exponencialmente o número de eleitores, abrindo a nacionalidade a “todos os descendentes dos que emigraram e perderam ou renunciaram à cidadania por motivos de exílio político, ideológico, religioso ou devido à sua orientação ou identidade sexual durante a Guerra Civil e a ditadura”).
Seja como for, segundo as últimas sondagens, o PP, que tem no Parlamento 137 lugares, subirá ligeiramente para 140 e o Vox, que tem 33, passará a 63. Ora, num Parlamento de 350 deputados, a maioria faz-se com 176, e já há comunidades com coligações PP/Vox a funcionar, como a Extremadura, Aragão, Castela e Leão e a Andaluzia.
Entre as vulnerabilidades do governo de Sánchez e do PSOE estão os escândalos de corrupção da família próxima do líder – a mulher, Begoña Gomez, e o irmão – e múltiplos negócios escuros, envolvendo dirigentes socialistas, como Rodriguez Zapatero. E depois há Ceuta, com as mentiras e confusões que gerou e a incompetência que revelou.
A coligação no poder é uma geringonça do partido de Sanchéz com os separatistas catalães e bascos e os partidos de extrema-esquerda, Sumar e Podemos. Em 2023, o Movimiento Sumar – o Sumar com 19 pequenos partidos – teve 12,13% dos votos e 31 deputados no Congresso, ficando um pouco atrás do Vox. Desta vez, as sondagens dão-lhe apenas 6,6% e 9 deputados.
Se os populares não insistirem em “linhas vermelhas” e o Vox não for demasiadamente exigente, podemos vir a assistir a uma coligação de direitas, como a que os brasileiros fizeram no novo Congresso.
Sánchez – tão ou mais desesperado do que Lula depois de 4 de Outubro – vai tentar tudo para não perder as eleições que antecipou. Vai cavalgar o problema da habitação, como se lhe fosse alheio, velando chorosamente Maricarmen; e vai repisar o medo do fascismo e da ultradireita – ele, o intrépido baluarte da Europa resistente ante o furacão Trump.
“Los españoles teneis que decidir qué papel quereis jugar. Si deseáis sumaros a esa ola ultraderechista que involuciona alli donde gobierna. O deseáis que España siga siendo un baluarte de apertura y de justicia social y de responsabilidad medio ambiental”, diz Sánchez.
Vamos ver o que dizem – pelo voto – os espanhóis. E se serão ou não ambientalmente responsáveis, reduzindo drasticamente as tóxicas emissões de Sánchez e da esquerda e contribuindo para um ar mais respirável.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia