Nenhuma escrita se pode alhear inteiramente do mundo, como dentro de uma bolha insonorizada e assética. Algumas tentativas que foram sonhadas de uma escrita autotélica, virada completamente para si própria e para as suas virtualidades, acabam por responder ou ao gesto de Baudelaire de recusa da modernidade ou ao desejo utópico de Flaubert de uma “escrita sobre coisa nenhuma”, uma recusa do mundo que é uma outra forma de a ele estar atento.No nosso melhor romance contemporâneo, de Maria Velho da Costa a Teolinda Gersão e Lídia Jorge, de Saramago e Lobo Antunes a Mário Cláudio, as janelas estão abertas, em todas estas escritas, para o mundo e seus desconcertos, no dizer de Camões.Lídia Jorge, agora justamente laureada com o Prémio Camões, é um bom exemplo de uma obra literária atenta ao mundo e às suas mudanças. À obra de maravilhamento puro com as coisas originais, que foi o seu primeiro livro, O Dia dos Prodígios, sucederam-se romances que trouxeram reações e reflexões, quer sobre a Guerra Colonial (A Costa dos Murmúrios), quer sobre a revolução de abril e seus destinos (Os Memoráveis) quer sobre essa terrível imagem do fim das nossas vidas que é o poderoso Misericórdia.O mundo pode entrar na obra literária de forma mais oblíqua e menos evidente, como sucederá na poesia de um Herberto Helder, mas não deixa de estar lá, de entrar pelas janelas mais fechadas e de fazer ouvir o seu rumor por dentro da mais incendiária escrita poética do nosso tempo.É que a escrita não tem de descer ao mundo, como algum menos conseguido neorrealismo defendeu. O mundo está sempre lá, de uma maneira ou de outra, qualquer que seja a atitude do autor perante ele, qualquer que seja a porta ou a janela por onde ele penetra na obra literária.Por isso, nós procuramos nos romances outros mundos ou outros olhares sobre o mundo em que vivemos. A densidade da escrita romanesca, de uma Maria Velho da Costa a uma Lídia Jorge, é resultado direto dessa atrição com o mundo (conceito de Silvina Rodrigues Lopes) que a escrita literária é.No seu livro de poesia Condor, António Carlos Cortez interroga-se:É ainda possível desenhar o mundoatravés dos sons translúcidosque orientam ao falarmosa vida?A que Raquel Nobre Guerra, em Postes de Luz Para Cães Vadios, responde com uma parábola zen:no início as montanhas são montanhase os rios são rios,então as montanhas já não são montanhase os rios já não são rios,e depois as montanhas são novamente montanhase os rios novamente rios.A poesia existe para abrir uma estranheza entre nós e o mundo que nos permita voltar a desenhá-lo e recuperá-lo para a nossa liberdade.Por isso a poesia tem agora menos eco no mundo, embora ele esteja nela com toda a intensidade. Como nos lembra outro poeta português contemporâneo, Daniel Jonas, no nosso tempo de barulho, o quase silêncio gera inquietações (in A justa desproporção). E a poesia é um jogo infinito com o silêncio do mundo.