Uma das primeiras páginas emblemáticas dos 161 anos de história do DN é a que noticia a morte da rainha Vitória.Em 1901. Essa primeira página traz uma ilustração que mostra a soberana em várias idades, a destacar a longevidade. Foram 63 anos de reinado. Acabou ali uma era, a chamada Era Vitoriana, momento de afirmação do Império Britânico, o tal que tinha fama de ser tão extenso que nele o sol nunca se punha. Será em 1947 a independência da Índia, a joia da Coroa, seguida, uma década depois da série de independências das colónias africanas, a pôr fim, de facto, ao Império, mas o ano da morte de Vitória tem um grande simbolismo. Afinal, nascia o século XX, que seria um século americano, como o provaram os triunfos nas duas guerras mundiais e na Guerra Fria.."A favor de Burnham está o potencial do Reino Unido, que pode não ser o mesmo da Era Vitoriana, mas que, mesmo assim, corresponde a um país que é a sexta maior economia mundial.”. O século XXI continua a ser americano, agora com a China a ser a grande rival, papel que chegou a ser da União Soviética. A União Europeia, vista como um bloco, pode ser o terceiro grande polo de poder no mundo, mesmo sem o Reino Unido, que há uma década votou em referendo para sair - o famoso Brexit. Mas e o próprio Reino Unido, que papel ambiciona ter no mundo, hoje que tem como monarca Carlos III, tetraneto de Vitória?Ora, apesar do carisma do monarca, a definição desse papel do Reino Unido, o rumo que vai ser seguido, cabe ao primeiro-ministro, desde ontem Andy Burnham, um trabalhista como o seu antecessor Keir Starmer. E Burnham, no seu primeiro discurso diante o n.º 10 de Downing Street, prometeu um plano para dez anos, que deverá desvendar nas próximas semanas. Esperam-se muitas ideias de política interna, numa perspetiva de devolver qualidade de vida aos 70 milhões de britânicos (e com claras preocupações sociais, como mostram os apoios aos sem-abrigo), e também pistas sobre a política externa, sabendo-se que Burnham é partidário de laços estreitos com a UE, inclusive na questão do rearmamento europeu, para lidar com a nova realidade criada pela invasão da Ucrânia pela Rússia; e tem plena consciência de que a relação especial com os Estados Unidos é vital, embora já não tão especial como nos tempos de Winston Churchill e Franklin Roosevelt ou nos de Margaret Thatcher e Ronald Reagan.Positivo foi o novo primeiro-ministro, um ex-mayor de Manchester que assume o cargo por escolha partidária sem ainda a confirmação nas urnas, ter assumido que o partido, e o governo, não tem estado à altura das expectativas. “Quero ser honesto convosco: não temos sido suficientemente bons e precisamos de melhorar. E vamos melhorar.”. Olhar dez anos para a frente. Dito dez anos depois do voto no Brexit, que dividiu os britânicos e não correspondeu àquilo que os defensores previam, seja no relançamento da economia, seja no controlo da imigração. Burnham terá uma missão difícil, mas poderá desfrutar de um certo período de estado de graça, pois o Partido Conservador não aparece como alternativa ao Labour e, nas sondagens, o Reform UK de Nigel Farage, embora lidere, parece estar a sofrer o impacto de nova liderança nos trabalhistas.A favor de Burnham está o potencial do Reino Unido, que pode não ser o mesmo da Era Vitoriana, mas que, mesmo assim, corresponde a um país que é a sexta maior economia mundial, tem em Londres uma extraordinária praça financeira, é um dos membros permanentes do Conselho de Segurança, com direito de veto, e tem o quinto maior arsenal nuclear. Uma liderança que seja capaz de perdurar, ao contrário da sucessão de primeiros-ministros dos últimos anos, será um primeiro passo para a reafirmação do Reino Unido. Veremos se está a nascer uma espécie de Era Burnham.