Entre o parquímetro e o transporte público: o dilema do condutor

Nuno Braga

Editor do Diário de Notícias

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Para quem tem carro, o debate sobre estacionamento raramente é abstrato. É a angústia diária de dar voltas ao quarteirão, pagar cada vez mais caro e, ainda assim, sentir que está sempre “a estorvar”. A verdade é que o automobilista individual não inventou este modelo de cidade, limitou-se a adaptar a sua vida a um sistema que, durante décadas, incentivou o uso do automóvel e prometeu liberdade em troca de estrada e estacionamento fácil. Ao mesmo tempo, muitos condutores dependem do carro porque o transporte público é insuficiente ou pouco fiável em vários percursos, e porque os horários de trabalho, a escola dos filhos ou o local onde vivem não se encaixam numa rede coletiva pensada sobretudo para os principais eixos urbanos.

Visto deste lado, medidas que reduzem lugares de estacionamento ou aumentam tarifas soam, muitas vezes, a penalização de quem não tem alternativa real. Sobretudo quando, além do preço da viatura, o condutor suporta combustível, seguro, imposto de circulação, manutenção e estacionamento, num orçamento mensal já apertado. Há, por isso, uma contradição difícil de ignorar: o mesmo poder público que, durante anos, promoveu vias rápidas, centros comerciais com grandes parques e políticas de crédito ao consumo automóvel, pede agora que as pessoas “larguem o carro” sem oferecer, em simultâneo, um transporte público competitivo, seguro e confortável.

Isto não significa que a cidade possa continuar a ser desenhada apenas em função do automóvel. O espaço é finito e um carro com uma só pessoa ocupa muito mais via do que um autocarro cheio. Mas, do ponto de vista de quem conduz, a transição para uma mobilidade mais sustentável só será percebida como justa se vier acompanhada de alternativas claras e fiáveis. Enquanto o transporte coletivo não for suficientemente bom, previsível e abrangente para disputar de igual para igual com o carro — em tempo e conforto, sobretudo —, o automobilista verá qualquer mudança no estacionamento menos como uma política racional de gestão do espaço e mais como um custo adicional imposto a quem, na prática, continua sem outra escolha.

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