Para quem tem carro, o debate sobre estacionamento raramente é abstrato. É a angústia diária de dar voltas ao quarteirão, pagar cada vez mais caro e, ainda assim, sentir que está sempre “a estorvar”. A verdade é que o automobilista individual não inventou este modelo de cidade, limitou-se a adaptar a sua vida a um sistema que, durante décadas, incentivou o uso do automóvel e prometeu liberdade em troca de estrada e estacionamento fácil. Ao mesmo tempo, muitos condutores dependem do carro porque o transporte público é insuficiente ou pouco fiável em vários percursos, e porque os horários de trabalho, a escola dos filhos ou o local onde vivem não se encaixam numa rede coletiva pensada sobretudo para os principais eixos urbanos.Visto deste lado, medidas que reduzem lugares de estacionamento ou aumentam tarifas soam, muitas vezes, a penalização de quem não tem alternativa real. Sobretudo quando, além do preço da viatura, o condutor suporta combustível, seguro, imposto de circulação, manutenção e estacionamento, num orçamento mensal já apertado. Há, por isso, uma contradição difícil de ignorar: o mesmo poder público que, durante anos, promoveu vias rápidas, centros comerciais com grandes parques e políticas de crédito ao consumo automóvel, pede agora que as pessoas “larguem o carro” sem oferecer, em simultâneo, um transporte público competitivo, seguro e confortável.Isto não significa que a cidade possa continuar a ser desenhada apenas em função do automóvel. O espaço é finito e um carro com uma só pessoa ocupa muito mais via do que um autocarro cheio. Mas, do ponto de vista de quem conduz, a transição para uma mobilidade mais sustentável só será percebida como justa se vier acompanhada de alternativas claras e fiáveis. Enquanto o transporte coletivo não for suficientemente bom, previsível e abrangente para disputar de igual para igual com o carro — em tempo e conforto, sobretudo —, o automobilista verá qualquer mudança no estacionamento menos como uma política racional de gestão do espaço e mais como um custo adicional imposto a quem, na prática, continua sem outra escolha.