Tal como a guerra, na famosa definição de Clausewitz, é a continuação da política por outros meios, a diplomacia é a continuação da política pelos meios do diálogo e da negociação, com a finalidade última de evitar o recurso à guerra.Devemos distinguir entre a diplomacia, que é a arte da convivência, do relacionamento e da negociação entre os Estados, e a política externa, que compreende as grandes linhas estratégicas por que se move uma Nação e onde cabem as decisões finais sobre pontos concretos que fiquem em aberto no decurso das relações diplomáticas.Passar da diplomacia à guerra é uma decisão que só o poder político, que nas democracias é o poder político legitimamente eleito e atento à sua opinião pública, pode tomar. Mas isso não quer dizer que a diplomacia perca sentido em tempo de guerra: pelo contrário, a importância dos possíveis diálogos e negociações diplomáticas entre os beligerantes e com terceiros Estados que sejam aceites como mediadores, torna-se fundamental, podendo ser decisiva, na evolução e possível resolução de uma guerra. A diplomacia não é só a gestão da paz.O que pode a diplomacia? Ela nada pode, se não houver vontade política de chegar a acordo e clareza quanto às chamadas “linhas vermelhas”, que definem os limites das possíveis concessões ao adversário.A diplomacia é um instrumento insubstituível para a construção e consolidação da Paz; mas a diplomacia, enquanto defensora dos interesses nacionais, é um instrumento da vontade política do seu governo, seja este uma democracia, onde essa vontade possa ser discutida publicamente e até eventualmente mudada por via eleitoral, seja uma autocracia, onde todas as discussões e decisões se passam no segredo dos bastidores.Por genéricas e abstratas que sejam estas considerações, elas não deixam de refletir graves preocupações com a atualidade.É que, de um lado (falo da Rússia e da Ucrânia) a diplomacia parece ter desaparecido enquanto a dureza, a intensidade e a crueldade da guerra cresce a olhos vistos – a mudança de prioridades dos Estados Unidos e a incapacidade negocial da Europa têm que ver com esta perigosa evolução!A Europa tem urgentemente de reforçar a sua credibilidade militar, o que não implica necessariamente cortes nas despesas sociais e de coesão, antes numa mais estreita cooperação e coordenação das suas forças armadas. E sim, é preciso defender a Ucrânia, mas não podemos deixar de falar com a Rússia, tal como fazem os Estados Unidos!Por outro lado, no chamado Médio Oriente, parece haver, pelo contrário, um excesso de diplomacia, uma vez que todos os dias nos anunciam acordos de paz entre os Estados Unidos e o Irão, e todos os dias esses acordos acabam por ser desmentidos – é difícil sabermos se se aponta para uma paz, ainda que precária, ou para a eclosão de uma guerra ainda mais devastadora. O poder de influência de Israel, que alarga dia a dia as suas fronteiras militares, parece aqui ser claro.A paz é cada vez mais urgente: os potenciais de conflito crescem dia a dia e os poderes parecem assumir objetivos crescentemente maximalistas: a Rússia quererá refazer, no que pensa ser-lhe possível, o espaço do antigo Império Russo (e Xi Jin Ping acertou, quando avisou Putin de que não podia corrigir a História); Israel quer criar uma zona de segurança total à sua volta, que passa pela eliminação de todas as ameaças em seu redor, incluindo o poder militar do Irão, através de políticas de terra queimada. E a China avisa que nunca renunciará à soberania sobre Taiwan.É de recear que tenhamos passado de um campo de divergências, suscetíveis de serem resolvidas por negociação diplomática, com cedências de todas as partes, para um teatro de diferendos, onde os objetivos finais passam pela eliminação do adversário, o que nos levaria à chamada “guerra total”. A Europa, que tem sido posta à margem das mais importantes negociações, conheceu bem, após a Segunda Grande Guerra, as consequências reais de uma guerra total.A diplomacia será tão importante quanto as potências em conflito desejem verdadeiramente a paz.