Empresas familiares e o novo mundo

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É redundante afirmar que vivemos momentos de grande incerteza. O que talvez mereça reflexão são os impactos na nossa sociedade de um mundo que parece estar em reconfiguração acelerada. Verdadeiramente podemos vir a acordar, dentro de quatro anos, num mundo fundamentalmente diferente.

Um mundo mais conflituoso, com menos regras, com instituições estaduais e supra-estaduais mais frágeis, com opções políticas mais extremadas. Com um predomínio da força sobre o direito, assim negando séculos do percurso da humanidade.

Ora, é consequência evidente deste mundo em reconfiguração, uma nova realidade económica com impacto na macroeconomia e, também, nas empresas.

Certamente que vamos ter mais investimento nas áreas da Defesa ou das infraestruturas e consequentes aumentos da dívida pública e, claro, uma maior pressão sobre as taxas de juro. Certamente que na clássica dicotomia de Samuelson alguma “manteiga” vai ser sacrificada pelos “canhões”.

Esta realidade merece especial abordagem quando, em estudo recente, de grande solidez, a Deloitte conclui que as empresas familiares deverão registar um forte crescimento e quase duplicar as receitas até 2030.

Estudo muito interessante de que se destaca a seguinte informação quantitativa:

— As empresas familiares representam 22% de todas as empresas com receitas anuais acima dos 100 milhões de dólares;

— Estima-se que a receita anual das empresas familiares aumente 84% entre 2020 e 2030;

— O número de empresas familiares deve crescer 22% entre 2020 e 2030.

Sabemos que as empresas familiares, especialmente em momentos de crise, assumem sempre uma maior resistência, uma acentuada visão de longo prazo, uma certa contenção na distribuição de dividendos e o recurso mais acentuado a capitais próprios.

Continuando tudo isto a ser verdade não podemos olvidar que, também neste universo, mudanças significativas ocorreram e, em muitos casos, as famílias empresárias são hoje titulares de muito significativos portfolios de activos.

E este é todo um novo desafio que se abre e que, conforme a resposta que lhe for dada, pode confirmar ou infirmar as perspectivas do magnífico estudo da Deloitte, tanto mais que se estima que o valor global dos portfolios detidos e geridos por family offices ascenda a perto de nove biliões de euros.

À exigente gestão de empresas em crescimento acresce uma não menos exigente gestão de portfolios de investimento, em tempos de crise.

Este está a ser, de facto, o século de todos os riscos e de todos os desafios.

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