A recente proposta do Governo relativa ao pacote laboral, submetida na Assembleia da República, revela uma preocupante desconexão da senhora ministra, prof. Maria do Rosário da Palma Ramalho, relativamente às múltiplas realidades do trabalho e das empresas em Portugal no século XXI.Para isso também terá contribuído a forma como conduziu o processo, nomeadamente ao ignorar os contributos dos sindicatos independentes e das empresas do conhecimento e do sector digital. A proposta governamental evidencia e traduz uma inequívoca falta de diálogo e de compreensão das necessidades atuais do país.Acresce que esta é uma iniciativa legislativa que, além de não responder aos desafios contemporâneos, ameaça a estabilidade social e económica. Ao prometer fragilizar milhões de trabalhadores, a proposta abre caminho para a proletarização da classe média e fomenta uma transferência de riqueza das famílias para as grandes empresas, acentuando as desigualdades e colocando em risco o equilíbrio social.Os sinais de descontentamento são claros e são visíveis nas sondagens recentes, bem como nas greves gerais, as quais demonstram que uma ampla maioria dos portugueses rejeita a proposta governamental de revisão do Código do Trabalho.Entre os pontos mais críticos da proposta, importa voltar a lembrar e a enfatizar as restrições ao exercício da parentalidade, dificultando a conciliação entre vida profissional e familiar; a precarização dos contratos de trabalho, promovendo a instabilidade e a insegurança laboral; o prolongamento injustificado dos contratos a termo, impedindo a construção de carreiras sólidas; e, por último, mas não em último, a limitação da ação sindical, enfraquecendo a representação dos trabalhadores.Estas terríveis linhas vermelhas, se ultrapassadas, afastam Portugal dos modelos sociais de referência, como é o caso da Alemanha e de França, e aproximam-nos perigosamente de realidades marcadas por instabilidade e insucesso, como é o caso de alguns países da América do Sul.Neste contexto, é fundamental que os responsáveis políticos, nomeadamente André Ventura e José Luís Carneiro, assumam as suas responsabilidades e estejam à altura das suas declarações públicas.Importa que Chega e PS assumam as responsabilidades políticas e sociais que lhes cabem na defesa dos interesses dos trabalhadores e da coesão social. Os portugueses agradecem!