Há dias, na sessão semanal da Academia Brasileira de Letras, tive a grande alegria de saber, na hora exata, que Lídia Jorge tinha obtido o merecidíssimo Prémio Camões. Era algo justo e necessário. O lugar e a circunstância tiveram uma importância especial, uma vez que aquele era o cenário ideal demonstrativo da importância do reconhecimento. A partir do Rio de Janeiro, no Petit Trianon, ligados pelas novas tecnologias, era a língua portuguesa que exprimia toda a sua vitalidade. A grande escritora, com uma obra rica e multifacetada, alcançava expressão universalista, capaz de congregar a diversidade de um idioma cada vez mais global e aberto. A evocação punha a tónica na importância da literatura como fator decisivo de diálogo entre povos e culturas.O elogio da literatura é algo fundamental num tempo em que o apelo a pensar e a ler corresponde ao cerne da vida cultural numa sociedade moderna e desenvolvida. A partir deste tema, evoco a morte de um antigo colega e amigo que entregou a sua vida à defesa do direito, da democracia e da cultura e que merece especial recordação.Falo de António Rebordão Montalvo para quem a literatura era um complemento natural da vida. Pouco antes de nos deixar inesperadamente, pediu-me que apresentasse o seu último livro, o que fiz com muito gosto. Compreendi plenamente que, ao dedicar-se generosamente à escrita e à leitura, era a vida que homenageava em toda a sua diversidade e esplendor.Apaixonado pela aventura portuguesa no mundo, estudioso da diversidade das culturas, defensor ativo da participação cívica e da legitimidade democrática através do poder local, foi um advogado competente entregue às boas causas e à ideia de um Estado de Direito próximo das pessoas e de uma Justiça humana.Sempre o encontrei preocupado com as causas dos outros e do bem comum, desde a Associação de Estudantes até ao Comité de Peritos do Conselho da Europa sobre Direito de Autonomia Local ou à CCDR de Lisboa e Vale do Tejo. As últimas conversas que tivemos ocuparam-se da literatura e da necessidade de uma maior qualidade nas aprendizagens.A Educação é, sem dúvida, prioridade essencial do desenvolvimento social e económico. E estamos num momento decisivo na sociedade portuguesa e europeia neste domínio. Os níveis de formação dos jovens alcançados obrigam a sermos mais exigentes e a recusar a facilidade.No seu último romance, Cartas de Jharia (Astrolábio, 2025), a tradição e a modernidade confrontam-se na sociedade indiana contemporânea. Há a memória pesada da condenação das viúvas ao sati, prática bárbara de sete séculos, além da lembrança tremenda da exploração das crianças nas minas de Jharia. Com o complexo pano de fundo da Índia tradicional em choque com a Índia moderna, deparamo-nos com a essência da dignidade humana, na relação entre Michael e Katherine, sob o peso da incerteza de um veredicto. Coexistem angústia e esperança, dúvida e determinação, e a interrogação sobre o futuro do jovem Karu, que não poderia ficar sujeito a um fatalismo do passado.Na narrativa complexa, tudo se complementa: as injustiças antigas, as suas repercussões nos dias de hoje, os poderosos desafios de uma sociedade que progride, o diálogo entre culturas, bem evidente nas origens diferentes dos protagonistas.No fundo, a literatura é um extraordinário revelador sobre a essência da vida. Por isso, não podemos viver sem ela...