Para um reformado, na plenitude da sua jubilação ( Exultate! Jubilate!), o fim das férias é um paradoxo. O oposto das férias é o trabalho e o reformado, ainda que tenha uma multiplicidade de compromissos e de atividades, não se defronta, por definição, com o trabalho regular, nesta época melancólica em que nos chega setembro (September Song) e em que consideramos com amargura que nada nos devolverá “the splendour in the grass/the glory in the flower”(Wordsworth), que naqueles momentos de verão e primavera passaram efemeramente por nós.
Este conflito entre o renovar da Natureza (quando faz a gentileza de não nos enviar tempestades, vulcões e tremores de terra) e a nossa breve passagem pelo mundo é tema de muita poesia, boa e má, e não vou acrescentar nenhum risco da minha lavra a esta sucessão de amarguras. Apenas recordo o tempo em que setembro era para mim, não o cair das folhas numa conta ao revés, mas a promessa do novo num ano (eu continuo a contar o tempo pelos anos letivos) de livros diferentes para estudar ou de tarefas novas por abordar.
Mas o que não podemos deixar cair, sob pena de nos rendermos à velhice, é a nossa curiosidade. É verdade que as novidades que surgem são de arrepiar; mas não seria assim também nos tempos passados, tão cheios de guerras e de horrores como o nosso tempo? Quando Montaigne saía da sua torre, o mundo lá fora era dominado pela crueldade das guerras de religião, pelos massacres entre cristãos católicos e cristãos protestantes. A curiosidade de Montaigne não esmorecia por isso e nunca ele desistiu de pensar apenas por nada poder fazer contra a barbárie.
Pensar tornou-se a tarefa mais urgente, neste tempo de polarizações simplificadoras e de mistificações organizadas. Cada contribuição de pensamento livre que surja, no sentido de uma saudável cura de ceticismo, a acordar-nos dos diferentes “sonos dogmáticos” em que vivemos, quais zombies amestrados, será de uma importância crucial nos tempos que estamos a viver.
Uma das muitas coisas que assustam é a distância em que a política se vai colocando, cada vez mais longe da palavra, da retórica e da persuasão, perto dos sound bites, da demagogia e da manipulação das emoções. Dirão que essa forma primária de comunicação política sempre existiu. Respondo que não era tão generalizada, sobretudo nas democracias. Argumentar bem e escrever bem eram trunfos nos debates políticos – e que vemos hoje?
Sim, a retórica podia muitas vezes cobrir um vazio de pensamento – mas, ainda assim, apelava à reflexão e ao debate, desde o tempo dos sofistas. A reflexão em liberdade é um pressuposto da cidadania.
Transformar o que deveria ser uma discussão racional numa conversa mexeriqueira de vão de escada tem, por certo, precedentes. Mas se recordarmos a História, veremos onde nos levam esse estilo de vida e esse modo de política – à autocracia mais brutal!
E que tem isto a ver com o fim das férias, pergunta o leitor, cansado de tanta digressão. É que, ao apelar à curiosidade contra a rendição à velhice, me ocorreu, mais do que o esplendor na relva, a barbárie no mundo. Sim, a nossa curiosidade impõe-nos a plena atenção ao mundo; mas pensar é também saber desligar-se do mundo e das suas ortodoxias e explorar seriamente o princípio da esperança.