Há uma pergunta que o debate europeu evita fazer: e se a França e a Alemanha deixassem de acreditar no projeto europeu? Não falamos de sair da União. Falamos de algo mais subtil e mais perigoso: permanecer nela sem lhe reconhecer o propósito original, ou seja, tornarmo-nos numa União tecnicamente intacta, mas politicamente à deriva.A construção europeia não nasceu de um tratado comercial, nem de um cálculo de eficiência económica. Nasceu da escolha política deliberada de transformar séculos de rivalidade franco-alemã num compromisso de paz e soberania partilhada. Da Declaração Schuman ao Tratado do Eliseu, esse entendimento entre Paris e Berlim funcionou como o motor silencioso de toda a integração.Quando os dois convergem, a Europa avança. Quando divergem, estagna. Mas nunca, até agora, se pôs em causa que ambos quisessem o mesmo projeto.Essa certeza começa a vacilar. Em julho, um tribunal de recurso de Paris reduziu a pena de inelegibilidade de Marine Le Pen, que confirmou de imediato a sua vontade de apresentar uma candidatura às presidenciais de 2027. Do outro lado do Reno, o chanceler Friedrich Merz enfrenta a maior impopularidade de um governante alemão desde a Segunda Guerra, com a AfD a liderar as sondagens nacionais e a aproximar-se de vitórias inéditas nas eleições regionais de setembro.O momento agrava o risco. A pergunta coloca-se numa fase particularmente exigente para a Europa, com uma guerra às suas portas e dúvidas crescentes sobre a disponibilidade da NATO para continuar a garantir a sua Defesa. Um enfraquecimento simultâneo do compromisso franco-alemão surgiria, assim, precisamente quando a União mais precisa de coesão interna e de capacidade de decisão autónoma.A questão não é jurídica. Discutir se a União sobreviveria formalmente à saída da França e da Alemanha é interessante, mas talvez menor: a Comissão, o Conselho, o Parlamento, o euro, o mercado único dificilmente desapareceriam de um dia para o outro. A história ensina-nos que os projetos políticos raramente morrem de forma abrupta. Esvaziam-se lentamente, e é exatamente esse esvaziamento silencioso, mais do que qualquer saída formal, que constitui o verdadeiro risco.Porque a soberania partilhada não é um valor abstrato mas a convicção prática de que os interesses nacionais são mais bem protegidos em conjunto do que isoladamente. Se essa convicção se apagar nos dois países que lhe deram origem, a Europa não perde apenas dois aliados fundamentais.Perde a lógica interna que a distingue de uma simples zona de comércio livre, tornando-se inevitavelmente menos coesa, menos influente, menos capaz de enfrentar desafios que nenhum Estado resolve isoladamente.O foresight não serve para prever se este cenário acontecerá. Serve para identificar riscos antes de se tornarem inevitáveis e para aumentar a nossa capacidade de os influenciar. Se aceitarmos que este cenário é plausível, então a pergunta decisiva deixa de ser se Paris e Berlim mudarão de rumo. Passa a ser outra: o que devemos fazer, desde já, para que a União Europeia continue a defender a democracia, o Estado de Direito, a prosperidade e a paz, mesmo que um dia o seu eixo fundador deixe de acreditar plenamente no projeto que criou?