E se Paris e Berlim mudarem de rumo?

Bernardo Ivo Cruz

Professor convidado UCP/UNL/UÉ

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Há uma pergunta que o debate europeu evita fazer: e se a França e a Alemanha deixassem de acreditar no projeto europeu? Não falamos de sair da União. Falamos de algo mais subtil e mais perigoso: permanecer nela sem lhe reconhecer o propósito original, ou seja, tornarmo-nos numa União tecnicamente intacta, mas politicamente à deriva.

A construção europeia não nasceu de um tratado comercial, nem de um cálculo de eficiência económica. Nasceu da escolha política deliberada de transformar séculos de rivalidade franco-alemã num compromisso de paz e soberania partilhada. Da Declaração Schuman ao Tratado do Eliseu, esse entendimento entre Paris e Berlim funcionou como o motor silencioso de toda a integração.

Quando os dois convergem, a Europa avança. Quando divergem, estagna. Mas nunca, até agora, se pôs em causa que ambos quisessem o mesmo projeto.

Essa certeza começa a vacilar. Em julho, um tribunal de recurso de Paris reduziu a pena de inelegibilidade de Marine Le Pen, que confirmou de imediato a sua vontade de apresentar uma candidatura às presidenciais de 2027. Do outro lado do Reno, o chanceler Friedrich Merz enfrenta a maior impopularidade de um governante alemão desde a Segunda Guerra, com a AfD a liderar as sondagens nacionais e a aproximar-se de vitórias inéditas nas eleições regionais de setembro.

O momento agrava o risco. A pergunta coloca-se numa fase particularmente exigente para a Europa, com uma guerra às suas portas e dúvidas crescentes sobre a disponibilidade da NATO para continuar a garantir a sua Defesa. Um enfraquecimento simultâneo do compromisso franco-alemão surgiria, assim, precisamente quando a União mais precisa de coesão interna e de capacidade de decisão autónoma.

A questão não é jurídica. Discutir se a União sobreviveria formalmente à saída da França e da Alemanha é interessante, mas talvez menor: a Comissão, o Conselho, o Parlamento, o euro, o mercado único dificilmente desapareceriam de um dia para o outro. A história ensina-nos que os projetos políticos raramente morrem de forma abrupta. Esvaziam-se lentamente, e é exatamente esse esvaziamento silencioso, mais do que qualquer saída formal, que constitui o verdadeiro risco.

Porque a soberania partilhada não é um valor abstrato mas a convicção prática de que os interesses nacionais são mais bem protegidos em conjunto do que isoladamente. Se essa convicção se apagar nos dois países que lhe deram origem, a Europa não perde apenas dois aliados fundamentais.

Perde a lógica interna que a distingue de uma simples zona de comércio livre, tornando-se inevitavelmente menos coesa, menos influente, menos capaz de enfrentar desafios que nenhum Estado resolve isoladamente.

O foresight não serve para prever se este cenário acontecerá. Serve para identificar riscos antes de se tornarem inevitáveis e para aumentar a nossa capacidade de os influenciar. Se aceitarmos que este cenário é plausível, então a pergunta decisiva deixa de ser se Paris e Berlim mudarão de rumo. Passa a ser outra: o que devemos fazer, desde já, para que a União Europeia continue a defender a democracia, o Estado de Direito, a prosperidade e a paz, mesmo que um dia o seu eixo fundador deixe de acreditar plenamente no projeto que criou?

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