O historiador John Ghazvinian, autor de uma história das relações entre os Estados Unidos e o Irão, conta que o primeiro americano a entrar em contacto com os iranianos foi Joel Roberts Poinsett, em 1807. Descrito como um “cavalheiro da Carolina do Sul”, Poinsett, médico, aproveitava a fortuna da família para conhecer o mundo e tinha até jantado, em São Peterburgo, com Alexandre I. Foi o czar que o autorizou a visitar o Cáucaso, numa época em que os russos procuravam expandir-se para algumas terras tradicionalmente dos persas. Anos mais tarde, Poinsett foi embaixador no México e depois secretário da Guerra, com outras prioridades que não o remoto país do Médio Oriente. Foi já depois da morte do tal “cavalheiro da Carolina do Sul” que os Estados Unidos, aliás, assinaram com o Irão o primeiro tratado de comércio e amizade, em 1856.
A Pérsia (foi só em 1935 que o xá pediu para que o nome Irão passasse a ser usado internacionalmente) desde cedo fascinou os americanos. Ainda antes da Declaração de Independência, em 1776, já Benjamim Franklin elogiava a importância da educação para a civilização persa, tapetes persas iam a leilão por avultadas somas e Harvard tinha aberto um curso de língua persa. Mas até bem dentro do século XX, as duas potências que contavam na definição do futuro do Irão eram a Grã-Bretanha e a Rússia.
Mesmo na Segunda Guerra Mundial, para contrariar uma neutralidade que jogava a favor da Alemanha Nazi, a invasão do Irão foi feita pelos russos, na época a União Soviética, e pelos britânicos. Os americanos chegaram depois, asseguraram a logística do corredor que permitia o abastecimento do Exército Vermelho, e saíram depressa assim que o conflito terminou.
Simbolicamente, Teerão recebeu a visita de Franklin Roosevelt em 1943, para a cimeira em que o presidente americano debateu com o líder soviético, Estaline, e o primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, os passos seguintes contra o III Reich.
Dean Acheson, que foi secretário de Estado de Harry Truman, deixou o relato de uma reunião em Washington, em 1951, do presidente americano com Mohammed Mossadegh, o primeiro-ministro iraniano que ousara nacionalizar a Anglo-Iranian, petrolífera onde os interesses britânicos eram enormes, e quis reduzir os poderes a Mohammed Reza Pahlevi, que viria a ser o último xá do Irão. Mossadegh, conta Acheson, pediu a Truman que o ajudasse a contrariar a influência britânica. A América era, pois, vista com benevolência pelos iranianos.
Mossadegh equivocou-se. A CIA esteve com o MI6 no golpe que derrubou o primeiro-ministro nacionalista e devolveu todo o poder ao xá, que regressou do estrangeiro, agora certo de que não seria preso. Quem caiu em desgraça foi o próprio Mossadegh, cuja lealdade era ao país, muito mais do que à recente Dinastia dos Pahlevi.
Esse golpe, em 1953, marca as relações até hoje entre iranianos e americanos. O xá assumiu-se como um fiel aliado dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. A ocidentalização trouxe progressos sobretudo na vida das elites urbanas, mas a repressão da polícia secreta SAVAK manchou tanto a monarquia, como os que a protegiam. Quando o xá fugiu para o exílio e a República Islâmica, promovida pelo clero xiita, surgiu da Revolução de 1979, os Estados Unidos eram “o Grande Satã”, tal como a Grã-Bretanha chegou a ser chamada “a raposa velha”.
O apoio americano ao Iraque na guerra dos anos 1980 e o financiamento iraniano ao Hezbollah, que no Líbano fazia atentados contra os Marines, acentuaram ainda mais o fosso de desconfiança, que já era enorme por causa da crise dos reféns na Embaixada Americana em Teerão. A hostilidade mútua era tão evidente que, em 2002, George W. Bush, no imediato pós-11 de Setembro, incluiu o Irão num eixo do mal, juntamente com o Iraque e a Coreia Norte, isto, apesar de nem iranianos, nem iraquianos, nem norte-coreanos estarem envolvidos nos atentados contra as Torres Gémeas.
A negociação durante a Presidência de Barack Obama para um acordo nuclear, assinado em 2015, com o Irão a aceitar limites ao programa de enriquecimento do urânio e vigilância internacional, foi abandonada por Donald Trump ainda no seu primeiro mandato. A eliminação em 2020 do general Qassem Soleimani, uma alta figura dos Guardas da Revolução, num Iraque que, desde a queda de Saddam Hussein, está sob a influência cruzada de Washington e Teerão, confirmou o regresso à hostilidade total, que não se alterou com a chegada de Joe Biden à Casa Branca. Com Trump de regresso, deu-se um primeiro ataque americano em apoio de Israel em 2025 e depois, novamente em apoio de Israel, a guerra iniciada este ano, a 28 de fevereiro.
"Mas uma solução tem de ser encontrada e, independentemente do esforço dos países mediadores, isso implica, tanto em Washington, como em Teerão, ultrapassar os traumas do passado (mesmo os muito recentes) e procurar negociar a paz."
A capacidade de resistência do Irão, mesmo depois da morte de Ali Khamenei, logo no primeiro dia de ataques, impressiona, dado o poder militar dos Estados Unidos, e mostra, até certo ponto, o limite de poder de uma superpotência quando tem de atuar a longa distância, mesmo dispondo de bases em países aliados no Médio Oriente. Mas o facto de passados seis meses a guerra continuar não pode ser visto de forma simplista como uma derrota para os Estados Unidos, e muito menos como uma vitória para o Irão. Os primeiros podem ir adaptando a sua estratégia em função da realidade no terreno, e do nível de prioridade que este conflito implica; já o segundo está confrontado com a destruição e uma economia de guerra que se vem somar a décadas de sanções económicas e, portanto, tem de ter em conta as consequências de um prolongamento do conflito.
Trump, é certo, tem de lidar com uma população americana insatisfeita com uma guerra que lhe custa compreender, mas a liderança iraniana, seja ela o novo guia supremo Mojtaba Khamenei ou os comandante dos Guardas da Revolução, têm de lidar com um povo que, obviamente, reage ao bombardeamento do país e defende a soberania nacional, mas em grande parte já estava, ainda antes, cansado da falta de perspetivas e de um sistema de governo que não corresponde aos anseios gerais, como se viu nos protestos populares de finais de 2025. E que quer ter uma vida.
Boa parte do mundo olha para o prolongamento da guerra pela perspetiva egoísta dos acontecimentos no Estreito de Ormuz e o consequente impacto na cotação do barril de petróleo. Também há quem acredite egoisticamente beneficiar, de alguma forma, dos desgastes de um ou até dos dois beligerantes. Mas uma solução tem de ser encontrada e, independentemente do esforço dos países mediadores, isso implica, tanto em Washington, como em Teerão, ultrapassar os traumas do passado (mesmo os muito recentes) e procurar negociar a paz. Ultrapassar os traumas não significa que sejam esquecidos, apenas que não podem impedir que se procure o fim da guerra.