I. RequiemQuem melhor nos deu, sem nunca perder o fôlego, a torrente de uma escrita a colar com a vida, em toda a sua ternura e todo o seu terror, terá sido António Lobo Antunes.Onde Saramago escolhe a concisão das palavras e a surpresa das parábolas, onde Lídia Jorge prefere falar connosco em voz mais baixa e intimista, onde Teolinda Gersão fala do que sabe com serenidade minuciosa, António Lobo Antunes, pelo contrário, escolhe envolver-se nesse torrencial fluxo de palavras com que tenta alcançar a velocidade da vida, fazendo-nos pensar em Faulkner ou em Céline (os mais óbvios) e, com toda a sua diferença de pontos de vista, até em Agustina, a irónica.Não nos víamos muito: eu vivia quase sempre em postos no estrangeiro, mas cada vez que nos encontrávamos sentia da parte dele aquela ternura solidária com que ele vivia a amizade. Sei que havia intermediários preciosos para essa nossa amizade, o Miguel, as Margaridas, o Ernesto... E quando nos encontrávamos em festivais ou encontros literários lá fora, nos países onde eu estivesse colocado, ele trazia consigo essa amizade, que eu tanto gostaria de poder ter sido mais assiduamente cultivada.Tivémos um almoço marcado, quando voltei de vez a Portugal, mas depois não pôde haver esse almoço e, em seguida, o estado de saúde do António já não favorecia o nosso reencontro.Assim vão desaparecendo as pessoas relevantes na nossa vida e o mundo se nos vai tornando cada vez mais estrangeiro.II. TragicomédiaNo meio de todos os ditos e feitos do presidente Trump, escapou um pouco à atenção do mundo a inesperada designação de Melania Trump para presidir a uma sessão do Conselho de Segurança das Nações Unidas.Esta decisão levanta mais perplexidade do que censura: que quis o presidente Trump dizer ao mundo e às Nações Unidas com esta nomeação?Sem querer desrespeitar uma senhora, o certo é que, conhecendo o machismo profundo de Trump, não nos parece que este gesto tenha sido levado a cabo nem por boas razões, nem por especial consideração para com as Nações Unidas.III. Crepúsculo da razãoA irracionalidade do mundo nunca deixou de existir, mau grado todas as tentativas de dar às coisas razão e sentido.Contrariamente à previsão de Malraux, o nosso século não se tornou religioso: tornou-se sectário, fetichista e intolerante, o que, só por si, contraria o sentido da religião, que é o de nos religar a uma renovada sagração do mundo.Mas é verdade que nenhuma religião, nem nenhum ideal político e social escapou à tentação do sectarismo, do fetichismo e da intolerância.Estaremos a viver mais um crepúsculo da razão?