Do sistema financeiro ao “animal spirit”

António Rebelo de Sousa

Economista e professor universitário

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Para Shiller, a teoria financeira pode ser bela, isto é, “o campo disciplinar em si próprio possui uma beleza intrínseca”, estando, segundo o autor, “a beleza ligada à simetria”, a qual estaria muito para além da mera avaliação do equilíbrio.

De qualquer forma, existiria “um conceito fundamental de simetria implícito na ideia de eficiência de mercado”, o qual teria que ver com a ideia de que “os preços em mercados diferentes são, apenas, manifestações diferentes de uma verdade subjacente mais profunda”.

A análise das desigualdades não pode ser dissociada da análise de risco, havendo que ter em conta a evolução das formas de financiamento tradicional para estratégias de alavancagem financeira. A dívida excessiva aparece, por sua vez, ligada ao “ciclo da alavancagem” e este último aos colapsos pós-euforia, com a emergência de crises com efeitos sistémicos, em que se tende a ver nos Governos a “tábua de salvação”.

Daí que da “alavancagem excessiva” resulte a “crise financeira”, desta a “crise económica” e desta última a “crise da dívida soberana”, para já não se falar na “dissonância cognitiva” de que nos fala Festinger, isto é, a hipocrisia que leva responsáveis políticos a “ajustar” as suas opiniões por motivos de conveniência, muito embora não tenham deixado de acreditar nelas por completo.

Shiller chama a atenção para o facto de que se apresenta um erro reconduzir-se a função-objectivo dos gestores à maximização do lucro, antes sublinhando que a sua principal preocupação consiste na preservação da auto-estima, sendo que a maximização do lucro corresponde, segundo o autor, apenas a uma parte dessa auto-estima.

Por outro lado, Eugene Fama utilizou um conjunto de dados compilado pelo Center for Research in Security Prices, na Universidade de Chicago, sendo de realçar que o objectivo do Centro era o de obter um conjunto de preços das acções e a informação relativa a trocas de capital e dividendos por forma a permitir um cálculo rigoroso das rendibilidades atingidas, tendo chegado à conclusão (algo polémica) de que a própria especulação bolsista torna os preços de mercado perfeitos.

Shiller considera que existe um “estímulo interno para a acção”, tal como descrito por Keynes, o que explicaria o “animal spirit” ou o que, também, pode ser designado por “componente psicológica da decisão”.

O mesmo Shiller refere que as situações de injustiça na repartição de rendimentos e no acesso aos centros de decisão não se verificam, apenas, no sistema capitalista, sendo certo que também ocorrem nos sistemas de direcção-central, aonde surgem, muitas vezes, “dinastias familiares”, como, aliás, sucedeu na Coreia do Norte, em que Kim Il Sung ungiu o seu filho Kim Jong Il e este último ungiu o seu filho Kim Jong Un como líder indiscutível.

Mas, regressando à componente psicológica, convirá sublinhar que a mesma apresenta um peso muito significativo não apenas no comportamento dos investidores, mas também dos consumidores, havendo que ter em consideração a relevância do que se designa de “consumo posicional”, isto é, o consumo que se destina a afirmar a posição do indivíduo na sociedade, havendo mesmo quem defenda que uma forma de atenuar os efeitos perversos desse comportamento passaria pela aplicação de um imposto progressivo sobre o consumo.

Enfim, uma teoria que deveria entrar em linha de conta com os diferenciais existentes de propensão marginal a consumir, em função do rendimento usufruído pelo consumidor.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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