Portugal tem uma relação com o mar que o precede enquanto Estado.Aqui sempre existiu um porto de abrigo para os intrépidos Navegadores de outrora e para os que, hoje, se aventuram nas vagas alterosas.Ainda Portugal o não era, ou não sabia que já o era, e já fenícios e árabes, que se aventuravam no Atlântico, se abrigavam no estuário do Tejo, ou nas terras do baixo Mondego que, até Montemor e Soure, eram mar.E nesse pioneirismo que a geografia ditou, fomo-lo também com as comunicações e com os cabos submarinos.Aventura que o século XIX viu iniciar-se com D. Luís I e as ligações submarinas ao Reino Unido. Ligações a que outras rapidamente se sucederam, especialmente com os Estados Unidos, ligações em que os Açores assumiram papel central, especialmente a Ilha do Faial, com os seus operadores ingleses, alemães e norte-americanos.Tão natural passou a ser a nossa relação com os cabos submarinos que quase deixámos de lhes fazer referência.A internet e, agora, a IA, vieram dar-lhes uma nova vida e uma renovada relevância.Sem cabos os dados não circulam e, sem dados que alimentem a IA e os data centers, estes são, como alguém disse, “frigoríficos vazios”. E, de um frigorifico vazio não se tirará grande coisa…Portugal, que parece cultivar a triste sina de viver de ciclo em ciclo sem ser capaz de, por si próprio, definir uma vocação, persegui-la e prossegui-la, está agora entusiasmado com a proliferação dos data centers e dos novos cabos submarinos, qual novo “ouro do Brasil”.É certo que a glória que se antecipa não terá começado da melhor maneira.Já poucos se lembrarão, mas, foi um data center, que dizem ser o maior investimento do sector e um dos maiores da Europa, de nome Start Campus, que nos deixou sem Governo antes do Natal de 2023.É verdade que tendo sido vários cidadãos constituídos arguidos, outros apenas declarantes, e, todos nós, expectadores ansiosos numa quadra que pede sempre paz, a única coisa relevante que se regista é que vários ministros, de vários Governos, já por lá passaram em pedras primeiras, pedras segundas, inaugurações ou semelhante.O opróbrio ficou com quem o sofreu!Releva, no entanto, neste percurso entre o opróbrio e a glória que se antecipa, registar que Portugal vai ser destinatário de milhares de milhões de investimento em cabos submarinos e em data centers.Por uma vez, façamos bem feito e convertamos uma oportunidade em conhecimento e numa vocação.Estamos preparados para proteger os 4000 quilómetros de cabos que ligam o continente, os Açores e a Madeira?Estamos disponíveis para sermos apenas a localização centralizada de data centers, entre Sines e Vila Franca de Xira?Estamos preparados para os consumos de água e energia a que os data centers obrigam? Ou vamos sacrificar a qualidade de vida dos cidadãos e a nossa capacidade de produção agrícola?O que é que Portugal espera e quer deste novo desafio?Entre o opróbrio e a glória há um espaço que só o trabalho pode ganhar. Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico