Vivemos numa sociedade em que proliferam os doutores nas áreas mais extravagantes das “Ciências Políticas”. Muitos deles fazem comentários nos programas de opinião dos canais televisivos, de modo tanto mais desarrazoado quanto o mais eficaz para captar o maior número possível de telespectadores. O que me leva a interrogar se algum deles terá estudado o pensamento político de Cantinflas, que ganhou um Globo de Ouro no campo da comédia, uma parente próxima da vida partidária. Embora falecido em 1993, pareceu-me adequado rever as suas intervenções na arte da política e imaginar como teria reagido ao discurso lengalenga que Donald Trump pronunciou esta semana sobre o Estado da União.Cantinflas era um homem perspicaz e enquanto vizinho dos EUA, por ser mexicano, prestaria certamente uma bem gozada atenção à arenga do presidente norte-americano. Teria, não tenho dúvidas, ficado encantado. Trump mostrou, uma vez mais, ser um dos seus, um extraordinário orador num estilo que a personagem mexicanoa apreciava: o discurso circular. Ou seja, uma alocução sem fim, que volta repetidamente aos mesmos temas, como se o orador estivesse fechado numa arena sem saída.Trump, no seu Estado da União 2026, passou reiteradamente pelas questões da imigração, do sucesso da sua governação, nomeadamente na área da economia, da incompetência dos Democratas, do patriotismo, dos oito acordos de paz conseguidos, das negociações com o Irão. As intenções do discurso foram claras: mostrar genialidade, projetar poder e criar divisões. Já Cantinflas dizia que essas são as principais armas dos políticos, à qual eu acrescentaria a intriga. O comediante daria à preleção de Trump a nota máxima.Ficaria, no entanto, preocupado no que respeita ao Irão. Embora Trump fale de negociações e diga que prefere um acordo - ontem teve lugar em Genebra uma nova e estranha sessão de conversações, com dois interlocutores do lado americano e duas dezenas vindas de Teerão, um contraste que revela as diferenças de expectativas -, a realidade é que estamos muito perto de uma intervenção armada. Não sei se se trata de horas ou dias, mas os sinais parecem não enganar. Benjamin Netanyahu poderia esclarecer-nos, por estar seguramente dentro da questão.Já aqui escrevi, na edição do DN de 6 de fevereiro, que um confronto entre os EUA e o Irão seria “profundamente perigoso e complexo”. Para a região e para várias outras partes do globo.A Casa Branca dá, porém, mais valor ao triunfalismo do que à diplomacia. Nesta matéria, assemelha-se totalmente à posição dominante no Kremlin: as superpotências deixaram de acreditar em conversações. Agora, trata-se de esmagar os adversários.Não era assim no tempo da Guerra Fria, sobretudo na última década que terminou com o mandato de Mikhail Gorbachev. A minha geração nas Nações Unidas e na diplomacia internacional lembrar-se-á que Gorbachev defendia, quando falava com Washington ou em Nova Iorque, a ideia de negociações persistentes e criticava abertamente todas as decisões que julgasse irrefletidas, desequilibradas e perigosas para a estabilidade global.Foi por ter trabalhado com gente assim, de ambos os lados do muro, que aprendi que, para ganhar, na procura incessante pelo respeito do Direito Internacional, é preciso ser persistente e paciente. Essa mensagem deveria ser lembrada a quem manda em Washington, no caso do Irão. Como também seria relevante sublinhar junto da Casa Branca e do Kremlin uma outra lição dos tempos em que se respeitavam os acordos obtidos na ONU e noutros foros multilaterais: é geralmente um erro crasso subestimar o adversário.Na Assembleia-Geral da ONU, em setembro de 2025, o presidente do Irão Masoud Pezeshkian garantiu que o seu país não pretende construir uma bomba nuclear. As palavras valem o que valem e, em política, não resistem muitas vezes a uma rabanada de vento. Para a maioria dos líderes, a boa-prática política significa ser hábil na arte de bem mentir em toda a sela. As promessas de Pezeshkian não resistem certamente à visão do líder supremo Ali Khamenei, que vê os EUA e Israel como os inimigos mortais do seu país e a produção de mísseis e provavelmente de armas nucleares como a única salvação do seu regime. Mas a verdade é que o regime sofre de uma ameaça muito maior: a maioria dos iranianos quer acabar com a ditadura teocrática dos ayatolahs, um poder terrivelmente repressivo, antiquado e inaceitável face às normas dos Direitos Humanos.Num mundo de gente corajosa, as Nações Unidas deveriam estar a tentar promover, sem descanso, um encontro entre Donald Trump e Ali Khamenei. Um diálogo direto, um frente-a-frente entre os dois. Seria difícil, mas não impossível. Foi essa uma das lições que aprendemos com Winston Churchill e com muitos outros estadistas de elevado calibre. Churchill acreditava na eficácia das reuniões de cúpula. Ficaria boquiaberto ao saber que Trump enviara o pobre do Witkoff e o investidor imobiliário Kushner a Genebra para discutir a solução de um confronto que pode colocar o Médio Oriente e outras partes do mundo do avesso. Não estão à altura. Sobretudo, quando do outro lado está uma nação que tem um orgulho milenário. E que se sente inspirada e protegida por uma força divina. Esse tipo de ilusões tem muita força.