Deus, Claude e a criatividade humana

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De um debate entre representantes da Nespresso, da Philip Morris International, da Publicis Sapient e da Luma AI sobre o impacto da Inteligência Artificial na criatividade empresarial, de que nos dá conta a Inc. Co., pode extrair-se uma conclusão simples, muito embora exigente: o futuro não será das máquinas contra as pessoas. Da encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, também se pode inferir esta conclusão nesta linha e superiormente importante: o futuro deve ser humano, em prol da sua dignidade, do trabalho, das estruturas de poder e, encimando tudo isto, da responsabilidade.

Na Nespresso, por exemplo, a IA é utilizada para aprofundar a experiência do consumidor e personalizar a relação digital. A Philip Morris International sublinha o efeito multiplicador da colaboração entre humanos e IA. A Publicis Sapient aponta um ciclo crítico: aprender, desaprender e reaprender. O conhecimento envelhece depressa. A informação mais ainda. E a Luma AI resume o risco: uma pessoa poderá não perder o emprego para a IA, perde, isso sim, para outra pessoa que a saiba utilizar melhor.

É um facto que muitos combaterão os algoritmos. Outros entregar-se-lhes-ão sem resistência, travestindo os seus cérebros sem qualquer criticidade. Vencerão, porém, os que souberem trabalhar melhor com as máquinas/algoritmos sem deixarem de pensar pela sua própria cabeça.

A IA pode, parece-me, tornar profissionais competentes em profissionais ainda melhores. Aumenta a velocidade, amplia possibilidades, personaliza experiências e liberta muito tempo. Não transforma, porém, mediocridade em excelência. Desconhecimento em conhecimento. E, sem conhecimento, critério e intencionalidade humana, teremos tecnologia a produzir resultados pobres, estúpidos até, e em enorme escala.

As empresas têm de investir em tecnologia, em redesenho de processos e em pessoas. Investir apenas na máquina será tentar travestir os cérebros humanos. Investir em processos redesenhados e em tecnologia poderá ser interessante, mas as pessoas ficarão fora da equação. Investir apenas nas pessoas, ignorando a IA, será enviá-las para o futuro sem consciência da sua obsolescência presente.

Existe, contudo, uma fronteira que a tecnologia não ultrapassa facilmente: a relação humana. Podemos usar dados para saber o que alguém compra, procura ou prefere. Mas não conhecemos uma pessoa sem falar com ela, observá-la, compreender o contexto e ouvir aquilo que não cabe em nenhum aplicativo.

A criatividade, porém, continuará a depender da curiosidade, coragem, empatia, sensibilidade e capacidade para errar e corrigir. A IA é um amplificador: amplifica conhecimento, mas também exponencia ignorância; melhora talento mas, ao contrário, cria imensa superficialidade; alavanca a velocidade, no entanto, sem qualquer direção.

E chegamos à nova encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas. É um documento relevante, crítico mesmo, ao colocar a dignidade humana, o trabalho, o poder e a responsabilidade no centro do debate sobre IA. Não deixa de haver, porém, um paradoxo difícil de ignorar: várias análises externas sugerem um uso significativo de IA na sua redação (no Textguard deu-me 60% de texto realizado com auxílio de AI e no Justdone 75%; testes meus e responsabilidade minha; valem o que valem!; os comentários externos também se multiplicam sobre o uso de Claude), embora tal não tenha ainda sido confirmado, nem desmentido pelo Vaticano.

A participação no “lançamento” da encíclica do cofundador da Anthropic, empresa criadora do Claude, não deixa de ser sugestiva. E vejo-a muito pela positiva. Uma igreja que não quer ficar fora do seu tempo.

Ou seja, isto em nada invalida o documento. Nada. Porque o documento é absolutamente central e é pelo seu conteúdo que me tenho (e eu não sou ninguém) batido. E muitos outros, vozes notórias e esclarecidas, idem. Julgo que poderá ser um bom caso do uso de IA com criticidade/critério e responsabilidade. Seria bom, não obstante, um esclarecimento quanto ao processo usado para o fim a que se destina.

A criatividade do futuro, assumo, não será humana ou artificial. Será humana com Inteligência Artificial. Mas só continuará humana se soubermos quem pensa, quem escreve, quem decide e quem responde. Quem fez o quê. E, já agora, quem se responsabiliza pelo resultado. Usando ou não IA.

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