Desporto na infância: nem sempre mais é melhor

Na infância, o desporto deve ser fonte de saúde e prazer, nunca de pressão. Por isso, no momento de decidir novas rotinas, lembre-se: “menos” pode, afinal, ser “mais”.
Ana Sousa Carvalho

Pediatra na Clínica CUF Alvalade e no Hospital CUF Descobertas - Lisboa

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Com o regresso às aulas, em setembro, há uma pergunta que se torna recorrente nas consultas de pediatria: “Qual o desporto que devo escolher para o meu filho?” A resposta é mais simples do que parece: o melhor desporto é aquele que a criança gosta de praticar, desde que a escolha respeite a sua idade e o seu nível de maturidade.

Até aos 12 anos, o ideal é privilegiar a diversidade de movimentos em detrimento da especialização precoce. Variar entre desportos com bola, natação ou ginástica permite um desenvolvimento harmonioso da coordenação, do equilíbrio e da força, reduzindo o risco de lesões por sobrecarga.

A Organização Mundial de Saúde recomenda que crianças e adolescentes pratiquem, em média, 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa. Os benefícios vão muito além da forma física, refletindo-se no desenvolvimento ósseo, na qualidade do sono, no rendimento escolar e no bem-estar emocional.

Importa, contudo, ter em conta que a regularidade vale mais do que a intensidade. Uma criança que treina demasiado, sem dias de descanso, está em maior risco do que aquela que se mantém ativa de forma constante e moderada. Uma rotina de sono adequada e uma alimentação variada completam a equação.

Há sinais que merecem uma avaliação médica. Os pais e cuidadores devem estar atentos a sintomas como dor persistente após o esforço, coxear, inchaço nas articulações ou outras queixas que limitam o dia a dia, evitando considerá-las apenas “dores de crescimento”. É igualmente fundamental vigiar se há cansaço exagerado ou perda súbita de motivação, que podem refletir treino em excesso ou desgaste emocional.

Vejo em consulta, com frequência, crianças com queixas e lesões provocadas por treinos demasiado intensos para a sua idade, que poderiam, na maioria das vezes, ter sido evitadas. Na infância, o desporto deve ser fonte de saúde e prazer, nunca de pressão. Por isso, no momento de decidir novas rotinas, lembre-se: “menos” pode, afinal, ser “mais”.

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