Desmistificar não é apagar Portugal

Aline Hall de Beuvink

Professora associada da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).

Publicado a

Há uma discussão inevitável à medida que se aproximam as comemorações dos 900 anos da Fundação de Portugal: como celebrar a formação do País sem transformar a História numa lenda? A resposta deveria ser simples: com rigor, sem complexos.

É legítimo discutir se 1128 deve ser designado como uma “data de fundação”. A historiografia sabe que Portugal não surgiu, acabado, numa só batalha. Mas daí não resulta que São Mamede seja uma data arbitrária, nem que falar de fundação seja um equívoco. A própria resolução que institui as comemorações apresenta 1128 como o início do processo de formação de Portugal, seguido pela afirmação em Ourique, em 1139, pela consolidação em Zamora, em 1143, e pelo reconhecimento pontifício de 1179. É uma sequência histórica, não uma certidão de nascimento.

Importa, porém, distinguir História de deslegitimação da memória. Alexandre Herculano oferece um precedente exemplar. Ao estudar o Milagre de Ourique, submeteu a tradição à crítica documental e recusou a sua historicidade. Mas não apagou Ourique da cultura portuguesa. A batalha, a tradição e a sua iconografia continuaram na memória e no património simbólico nacional. A crítica histórica permitiu compreender a formação do mito e o seu papel na identidade portuguesa.

Esse deveria ser o equilíbrio em 2028. Podemos discutir São Mamede, Ourique, Zamora e a Manifestis Probatum. Podemos corrigir mitos e confrontar interpretações. O que não devemos fazer é transformar a complexidade da formação de Portugal num argumento contra a celebração da sua continuidade histórica.

Uma comemoração nacional não deve ser catequese patriótica. Mas também não deve ser penitência histórica. Deve ser uma oportunidade para conhecer melhor Portugal: a sua formação, os seus conflitos, os seus mitos e a continuidade de uma comunidade política e cultural.

A lição de Herculano continua actual: o rigor não precisa de medo da memória. Podemos desmistificar o passado sem o desprezar. Uma nação adulta consegue conhecer melhor a sua História precisamente porque não tem medo de a olhar de frente.

Diário de Notícias
www.dn.pt