Desafios do futuro

António Rebelo de Sousa

Economista e professor universitário

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Em termos de futuro, existem quatro eixos analíticos distintos a considerar:

  • o das novas ameaças emergentes em matéria de segurança;

  • o das ameaças em termos de “cenários” alternativos da economia mundial;

  • o da ameaça do conformismo face aos novos desafios com que nos defrontamos;

  • o do inconformismo com a irresponsabilidade anti-sistémica ao reforço da resposta democrática.

Começando pelas novas ameaças emergentes em matéria de segurança, importa relembrar que surgiram novas ameaças de terrorismo internacional em rede, sem limites e tendo como objectivo central generalizar o terror nos países “infiéis”, virando a opinião pública contra um poder executivo que se mostra incapaz de evitar o caos.

Evoluiu-se dos atentados dirigidos contra este ou aquele dirigente político, este ou aquele empresário, para os atentados dirigidos contra a população em geral, criando-se, por essa via, o pânico nas populações e a revolta com a incapacidade resposta de um Governo débil que não resistiria a uma nova ordem internacional, de sabor fundamentalista.

Sem se excluir a necessidade de se procurar combater as causas do terrorismo, importa, em primeira linha, combater o próprio terrorismo, sendo certo que a sua efectiva derrota ocorrerá por via de um processo gradual de subversão interna, processo esse para o qual contribuirão as divisões endógenas nos movimentos radicais, as quais resultarão da própria dinâmica “depuradora” inerente às formas de organização dogmáticas na inadmissibilidade da diversidade.

Quanto às novas ameaças em termos de “cenários” alternativos da economia mundial, importa sublinhar que se têm vindo a desenhar algumas tendências no sentido da implementação de políticas proteccionistas. Tal resulta de muitos sectores da sociedade hodierna, à direita e à esquerda, se considerarem vítimas da globalização, uma globalização que não entendem e que condenam.

O regresso aos proteccionismos contribuiria para intensificar as pressões inflacionistas, restabelecer ciclos infernais de inflação-desvalorização-inflação, reintroduzir lógicas de funcionamento interno de pendor nacionalista exacerbado, reduzir as condições de competitividade internacional e abrandar o ritmo de crescimento da economia mundial.

No caso Europeu, poderia mesmo representar não só o fim da “área do euro”, como ainda o insucesso do projecto da UE.

A evolução registada mais recentemente nos EUA e na Europa não nos permite ter, em relação a este problema, uma posição optimista.

Importa, por conseguinte, mobilizar vontades no sentido de se procurar evitar o desenvolvimento de uma dinâmica de tipo proteccionista, a nível internacional.

Existe, ainda, a ameaça do conformismo face aos novos desafios com que nos confrontamos.

Julgo existirem, para nossa desgraça, dois tipos de limitação de espírito.

Uma primeira, a primária, que é própria dos que afirmam que as pessoas deveriam ser discriminadas na base das suas convicções religiosas ou da sua raça; dos que proclamam que se combate os fluxos migratórios construindo muros; enfim, dos que consideram que as mulheres são um sub-produto dos homens e dos que gozam da “felicidade aparente” de só terem certezas.

Mas, há uma segunda limitação de espírito, a secundária, que consiste em se pensar que os que gozam de estupidez primária não irão fazer o que proclamam que vão fazer. Essa é a estupidez secundária.

E um dos sub-produtos da limitação de espírito secundária corresponde à posição assumida pelos novos “chamberlains” que entendem que deve compreender-se um género de legitimidade imperial que a Rússia tem para reclamar a posse da Crimeia e, porque não, de uma parte ou mesmo da totalidade da Ucrânia.

Segundo esses novos “chamberlains”, o Ocidente é que tem vindo a cometer grandes erros quando manifesta apoio aos desejos independentistas de alguns povos da Europa de Leste, sendo perfeitamente compreensível que Putin se considere provocado pela estratégia descabida que o Ocidente tem vindo a concretizar.

Daí que, segundo esses novos “chamberlains”, faça sentido contemporizar com Putin e compreender a postura de algum ou alguns dos nossos outrora aliados.

Nada de mais errado. Mesmo admitindo-se que o Ocidente tenha cometido erros no passado próximo, não será por essa razão que se justificará o desrespeito pelo direito internacional e a adopção como princípio de uma nova legitimidade imperial que substitua a única fonte de legitimidade defensável que é a democrática.

Finalmente, importa denunciar que existe uma irresponsabilidade anti-sistémica protagonizada por quem não apresenta paradigmas alternativos, o que só poderá contribuir para a substituição da Ordem pelo Caos.

E, em relação a essa irresponsabilidade anti-sistémica, teremos de ser, necessariamente, inconformistas.

Ser inconformista é continuar a pugnar pelos ideais que nortearam a acção política desenvolvida pelos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América, é defender a Democracia e a Liberdade é, enfim, defender o direito à felicidade de cada um.

O argumento invocado de que se torna, em primeiro lugar, necessário compreender as causas dos movimentos anti-sistémicos, sendo um argumento importante, não nos deve levar a hesitar na crítica a todas as formas de radicalismo, incluindo as de sabor populista ou até mesmo “poujadista”.

Pelo contrário, deve levar-nos a um ainda maior esforço pedagógico na defesa dos nossos valores, valores esses que, ao fim e ao cabo, só têm um limite à tolerância, limite esse que é a própria intolerância.

No populismo e na intolerância sou dos que vêm, como Sir Winston Churchill, “todas as pretensas virtudes de que desgosto e nenhum dos pretensos vícios que admiro”.

Nem mais, nem menos...

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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