Depois do fogo, nem trancas à porta…

Paula Marques

Dirigente da Associação Política Cidadãos Por Lisboa

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Este artigo de opinião é mais do que a minha voz, é a voz dos meus vizinhos, de toda uma comunidade que vê, ano após ano, o monstro do fogo devorar colheitas, animais, floresta e casas. Desta vez foi mesmo aqui ao lado. Vivo a escassos sete minutos de Tourelhe, em Cambra, concelho de Vouzela, onde começou o primeiro grande incêndio desta temporada.

Há momentos em que as palavras parecem insuficientes. A primeira é de solidariedade para com as populações atingidas e de reconhecimento pelo trabalho extraordinário dos bombeiros, da Proteção Civil, das forças de segurança, dos autarcas, dos voluntários e de todos os que protegeram vidas.

Um abraço também às famílias que perderam casas, explorações agrícolas, animais e anos de trabalho. Quando o fogo passa, não destrói apenas floresta: destrói património, meios de subsistência e projetos de vida.

No nosso caso, soma-se uma perda irreparável: a destruição da Reserva Botânica dos Loendros, em Campia, um património natural único, onde florescia uma espécie-relíquia do Jurássico. Para o ano, não haverá romagem aos Loendros.

É verdade que as ondas de calor, os ventos fortes e a seca favorecem estes incêndios. Mas também é verdade que estes fenómenos extremos deixaram de ser excecionais. Os efeitos das alterações climáticas tornaram-nos mais frequentes. Estamos no início do verão e sabemos que o pior pode ainda estar para vir.

Por isso, limitar o debate ao combate é um erro. É preciso reforçar a resposta operacional, mas sobretudo transformar as condições que tornam Portugal tão vulnerável.

Os bombeiros não podem continuar a depender, em larga medida, do voluntariado para responder a riscos permanentes. A profissionalização das corporações e um investimento consistente na Proteção Civil têm de deixar de ser promessas adiadas. Vale a pena olhar para a preparação técnica e equipamento que os bombeiros espanhóis trouxeram e para modelos mais robustos, nomeadamente os incorporados nas Forças Armadas

É precisamente na prevenção que está o busílis…

Continuamos com um espaço rural fragmentado, abandonado, composto por pequenas propriedades sem dimensão para serem geridos individualmente. É urgente promover modelos de gestão coletiva que agreguem parcelas, permitam a limpeza, reduzam custos e devolvam viabilidade económica aos proprietários.

E há o elefante na sala: a monocultura do eucalipto e, em muitas regiões, do pinheiro. Não se trata de demonizar espécies, mas de recusar que o interesse coletivo continue subordinado à indústria da celulose. Portugal precisa de territórios rurais em mosaico, onde coexistam agricultura, pastagens e espécies autóctones mais resistentes ao fogo, como o carvalho, o castanheiro ou o sobreiro. Protegendo pessoas, solos, água e biodiversidade.

Sabemos há muito o que é preciso fazer. Os estudos existem e os especialistas repetem-no todos os anos. O que falta é coragem política para enfrentar interesses instalados e fazer do ordenamento do território uma prioridade nacional.

A verdadeira homenagem às vítimas não se faz com discursos, nem cerimónias. Faz-se mudando, com celeridade, as políticas que permitem que a tragédia se repita.

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