Depois da tempestade vem a bonança? O desamparo e a vida psíquica na era climática

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As recentes tempestades que atingiram Portugal — de norte a sul, com especial incidência em zonas costeiras e ribeirinhas, como o litoral norte e centro (distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria), região de Lisboa e Vale do Tejo, Península de Setúbal e Algarve deixaram um rasto de destruição material e ceifaram 17 vidas humanas.

Casas inundadas, estradas cortadas, escolas encerradas, campos agrícolas devastados. Registaram-se inundações, quedas de árvores/estruturas e cortes de energia. Mas o impacto não se mede apenas em metros cúbicos de água ou milhões de euros em prejuízo. Mede-se também naquilo que não se vê: a fratura no sentimento de continuidade da vida.

A crise climática deixou de ser um cenário abstrato para se tornar experiência sensível. E essa passagem, do plano da previsão, para o plano do vivido, tem consequências psíquicas profundas.

A Psicanálise ensina-nos que o trauma não se define apenas pelo acontecimento, mas pela impossibilidade de o inscrever, simbolicamente. De o nomear. Quando a tempestade irrompe, o “real” — no sentido lacaniano de algo que escapa à representação (à linguagem/ “o Simbólico ” e à imagem / “o Imaginário) — invade o psiquismo. O sujeito vê-se confrontado com uma força da natureza que ultrapassa as suas defesas habituais. E o sofrimento, sobretudo para as vítimas diretas destas intempéries, leva-as a confrontarem-se com o impossível, com o indizível, com um núcleo traumático que insiste e retorna, manifestando-se em furos de sentido, angústia, ou — posteriormente, se não cuidado — com sintomas. É o que resta quando todo o sentido falha. 

No consultório, uma paciente de Águeda, de 43 anos, descrevia assim o dia em que a água entrou pela casa:

“Eu olhava pela janela e parecia que o mundo estava a acabar. Não era só medo. Era como se tudo aquilo que eu tomava por garantido tivesse deixado de existir.”

O que está em causa não é apenas a perda de bens. É a perda de um continente psíquico — para usar a terminologia bioniana — que sustenta a confiança na previsibilidade do mundo. Quando essa base falha, instala-se o desamparo.

O conceito de desamparo (Hilflosigkeit), formulado por Sigmund Freud, designa a condição primordial do ser humano: a dependência radical do Outro para sobreviver. Nos desastres naturais, essa experiência infantil retorna de forma crua. A tempestade reativa uma memória arcaica de vulnerabilidade absoluta. Há um sentir de extrema fragilidade, dependência e impotência. É a cicatriz primordial no seu esplendor!

Um homem de 58 anos, de Leiria, cuja empresa foi parcialmente destruída, dizia:

“Senti-me pequeno. Pequeno como uma criança. Não havia nada que eu pudesse fazer.”

Esta regressão não é patológica, em si mesma. É uma resposta à irrupção de forças que excedem o controlo individual. Contudo, quando o desamparo não encontra acolhimento simbólico — seja na comunidade, seja nas instituições — pode cristalizar-se em trauma.

Esse paciente continuava: “E agora, como é que vai ser?... Com tantos salários para pagar... sem conseguir produzir nada... com milhões de prejuízo... com a demora habitual dos seguros e zero apoio do estado, que é o que receio... O que vai ser da minha vida, de todas estas vidas?..." 

Ao contrário de um acidente isolado, as tempestades produzem um trauma colectivo. Comunidades inteiras partilham a mesma cena de devastação. A identidade local — ligada à paisagem, às rotinas, à memória intergeracional, ao saudosismo dos rituais interrompidos — fica abalada.

A literatura internacional tem vindo a sublinhar o peso psicológico dos grandes eventos climáticos. Estudos referidos por plataformas de prevenção de risco mostram um aumento significativo de sintomas de perturbação de stress pós-traumático, depressão e ansiedade após furacões e inundações. Mas a especificidade contemporânea vai além do TSPT: trata-se de uma crise da confiança no futuro.

Termos como ecoansiedade e solastalgia deixaram de ser neologismos académicos. A ecoansiedade traduz o medo crónico de um futuro ambientalmente ameaçado; a solastalgia descreve a dor de ver o lugar que sempre foi “casa” transformar-se em algo estranho.

Uma jovem estudante universitária conimbricense, de 19 anos, relatava:

“Desde as tempestades, não consigo olhar para o Mondego da mesma forma. Sempre adorei aquela vista. Agora penso: até quando?”

A solastalgia é uma saudade paradoxal: sente-se a perda enquanto ainda se permanece no lugar. A paisagem deixa de ser fonte de amparo, para se tornar lembrança da fragilidade.

Estudos recentes sugerem que traumas climáticos podem afetar a tomada de decisão a longo prazo.

Quando o sujeito vive sob ameaça constante, tende a privilegiar soluções imediatas, reduzindo a capacidade de planeamento. A sobrevivência psíquica torna-se prioridade.

Isto tem implicações sociais: comunidades repetidamente atingidas podem desenvolver uma espécie de fatalismo — “não vale a pena reconstruir” — ou, pelo contrário, um ativismo defensivo marcado pela urgência.

Ter isto em consideração é importante, sobretudo quando o que mais se tem ouvido, nos últimos dias, é: “Olhem que isto vai passar a ser comum! Tempestades, frio excessivo, calor extremo.... Habituem-se! Preparem-se!”

Luto ecológico

Há um luto que raramente é nomeado: o luto por paisagens, modos de vida, espécies. Não é apenas a casa que se perde; é o sentimento de perenidade da Terra. Este luto ecológico exige reconhecimento social. Quando não é simbolizado, pode converter-se em apatia ou agressividade.

Freud, em Luto e Melancolia, distinguiu o luto — processo doloroso, mas transformador — da melancolia, onde a perda não é reconhecida e se volta contra o eu.

No plano coletivo, a incapacidade de elaborar o luto ambiental pode gerar uma melancolia social difusa: uma sensação de desalento, descrença nas instituições e retração da participação cívica.

É aqui que a responsabilidade política se torna incontornável. Não basta reconstruir estradas e indemnizar prejuízos. É imperativo que o Governo: integre equipas de saúde mental nas respostas da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil; crie dispositivos comunitários de escuta e memória, nas zonas afectadas; promova processos de reconstrução participativa que respeitem os vínculos simbólicos ao território; assegure apoios económicos céleres que reduzam o sentimento de abandono. O desamparo não pode ser a resposta do Estado ao desamparo dos cidadãos.

Reconhecer o luto ecológico significa, também, assumir com clareza políticas estruturais de adaptação e mitigação climática, comunicadas sem ambiguidade, nem desmentido.

Quando o poder público oscila entre o reconhecimento formal da crise e a manutenção de práticas que a perpetuam, alimenta a cisão social e reforça a descrença. Pelo contrário, uma política consistente — que articule protecção ambiental, justiça social e saúde mental — transforma a dor em possibilidade de reparação.

Ignorar esta dimensão psíquica das calamidades é contribuir para a sua repetição sob a forma de melancolia colectiva. Enfrentá-la, com coragem institucional e visão de longo prazo, é afirmar que a reconstrução não é apenas material: é também simbólica, relacional e ética.

Num plano mais individual e privado, mas mantendo sempre a compreensibilidade psicanalítica, para além do acesso às ajudas estatais é imprescindível que cada indivíduo encontre as suas próprias soluções para esta situação. A saída não está na negação, nem no pânico. Está na possibilidade de reparação.

Melanie Klein descreveu a “posição depressiva” como o momento em que o sujeito reconhece a ambivalência e a responsabilidade pelos seus actos, abrindo espaço à reparação. Aplicado à crise climática, isto significa aceitar a dor e a implicação. Só a partir dessa aceitação pode emergir uma ação consistente e não, meramente, reativa.

Um paciente que renunciou a uma vida intensa e desgastante, enquanto alto quadro de uma empresa, e se dedicou à agricultura, após semanas de desalento, dizia:

“Perdi quase tudo. Mas, se desistir, é como se a tempestade ganhasse duas vezes.”

Este movimento é precioso: da paralisia, à reconstrução simbólica.

A função da psicanálise, neste contexto, é ajudar a “construir continentes” — espaços internos e comunitários onde a angústia possa ser pensada. Não se trata de eliminar o medo, mas de o tornar pensável.

As tempestades em Portugal são fenómenos meteorológicos. Mas são também acontecimentos psíquicos. Revelam a fragilidade das infraestruturas, mas também a fragilidade das nossas defesas internas. Expõem o desamparo, mas podem igualmente abrir espaço à solidariedade e à responsabilidade partilhada.

Entre o colapso e a negação, há um terceiro caminho: o da elaboração. É nele que se decide se a tempestade ficará como trauma bruto, ou se poderá transformar-se em experiência com sentido.

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