No início da década de 2010, quando milhões de pessoas participaram nos protestos da Primavera Árabe, as redes sociais passaram a ser o símbolo da promessa democrática e uma ferramenta capaz de dar voz aos grupos marginalizados para a construção de sociedades mais justas.A capacidade de mobilização social permitida por estas plataformas foi ainda comprovada nos anos seguintes, através de movimentos como o #MeToo e o #BlackLivesMatter, que quebraram fronteiras, unindo cidadãos de diversas regiões numa luta comum pela proteção dos Direitos Humanos e da democracia.Pouco mais de uma década depois, este entusiasmo tem vindo a dar lugar a uma preocupação crescente. As mesmas plataformas que marcaram a mobilização política e amplificaram vozes historicamente excluídas, tornaram-se uma ameaça à democracia, permitindo uma disseminação rápida de desinformação, o aumento da polarização e da manipulação política, e o desenvolver de uma nova dinâmica nas relações intra e interpessoais. O debate público global é hoje mediado por empresas privadas, cujo modelo económico se sustenta no lucro da atenção e das emoções.Os algoritmos, cada vez mais refinados, determinam não apenas os conteúdos a que somos expostos diariamente, como também a nossa forma de pensar, colocando-nos em “câmaras de eco” e “bolhas de filtro”, onde não sobra espaço para pontos de vista distintos. O utilizador, assoberbado pelo scrolling e por conteúdos muitas vezes violentos, vê progressivamente reduzida a sua capacidade de reflexão crítica e de racionalização, o que compromete a perceção consciente do efeito que esses conteúdos exercem sobre o seu pensamento.Assim, o problema principal deixa de ser apenas a disseminação rápida de informações falsas ou as tentativas de interferência estrangeira, mas a propensão que os cidadãos têm para ser influenciados por estes conteúdos adulterados e a sua falta de capacidade para distinguir o real do imaginário. Este problema é ainda acentuado com o surgimento dos deepfakes, que tornam a ideia de verdade partilhada em algo frágil, minando a confiança nas instituições democráticas.As consequências para a democracia são, então, profundas, desde logo pela crescente vulnerabilidade a processos de manipulação eleitoral, alimentados por campanhas de desinformação que procuram enfraquecer a confiança na democracia e promover narrativas conspiratórias. Casos como o das eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2016, que culminaram com a eleição de Donald Trump, ilustram o modo como as plataformas digitais podem ser instrumentalizadas em contextos políticos altamente polarizados.Mais recentemente, nas eleições europeias de 2024, instituições europeias, organizações da sociedade civil e redes de verificação de factos, como a European Fact-Checking Standards Network, identificaram e expuseram múltiplas tentativas de manipulação da informação dirigida aos eleitores, incluindo esforços para desencorajar a participação eleitoral e para amplificar divisões sociais através da exploração de temas controversos, como as políticas migratórias e o apoio à Ucrânia.No entanto, o impacto mais profundo das redes sociais, e que poderá vir a ser o mais problemático para a democracia, é a transformação dos cidadãos e das relações que estabelecem entre si. A exposição contínua a conteúdos violentos e emocionalmente intensos, como os clipes gráficos da violência na Palestina e na Ucrânia, tendem a ter o efeito contrário ao desejado, aumentando a apatia e a dessensibilização emocional, à medida que o utilizador vai normalizando o que vê.Ao mesmo tempo, o consumo de narrativas cada vez mais polarizadas desperta emoções fortes, como o medo, a indignação e a revolta, o que contribui para o aumento dos conflitos e para a redução da capacidade empática. Há, portanto, um processo de fragmentação do indivíduo e das relações humanas, que se tornam cada vez mais frágeis e reativas.Não havendo capacidade de compreender o outro e de respeitar as suas opiniões, este passa a ser identificado como um adversário moral ou uma ameaça. Este fenómeno é hoje visível na utilização de linguagem cada vez mais agressiva dirigida a grupos minoritários, como os migrantes e a comunidade LGBT+, e o aumento dos ataques racistas, antissemitas e antimuçulmanos na Europa e no mundo.A democracia do século XXI enfrenta, assim, o grande desafio de garantir que as redes sociais, que atualmente constituem o principal espaço onde se forma a opinião pública, não sejam exclusivamente reguladas por interesses privados e lógicas algorítmicas. Mais do que uma crise de informação, trata-se de uma crise de governação do espaço público digital, que contribui para a desumanização dos seus utilizadores e, consequentemente, para o enfraquecimento dos valores democráticos, afetando o exercício de uma cidadania global, consciente e informada.É, então, essencial procurar ativamente formas de enquadrar as redes sociais dentro de regras democráticas, antes que estas redefinam, por completo, as condições em que a própria democracia funciona.s Parceria DN/Clube de Lisboa