De Rockefeller a Musk

Rui Frias

Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

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Com a entrada em bolsa da SpaceX, Elon Musk tornou-se na última sexta-feira o primeiro trillion dolar man do planeta, um “trilionário”, usando a escala norte-americana (na que usamos em Portugal, tornou-se, na verdade, no primeiro bilionário mundial). Grosso modo, digamos que se o empresário sul-africano quisesse gastar um milhão de euros por dia a partir de agora, precisaria de 2700 anos para esgotar a sua fortuna. Para contextualizar, Musk vale qualquer coisa como o triplo do Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal e é mais rico do que metade dos países do mundo. Um marco histórico assinalável, mas que não pode deixar de levantar reflexões sobre a natureza do poder que está a ser construído nesta nova era de aceleração digital e tecnológica. Desde logo, será bom para as democracias tanta concentração de riqueza nas mãos de um só homem?

Há pouco mais de um século, John D. Rockefeller tornava-se o primeiro bilionário da era moderna (mais uma vez, por facilidade narrativa, adotando a escala norte-americana). O barão do petróleo, fundador da Standard Oil, simbolizava então o sucesso da era industrial: a “sua” matéria-prima alimentava fábricas, iluminava cidades e era o motor de uma economia em franca expansão. Mas Rockefeller representava também esse outro lado da moeda: a concentração de riqueza nas mãos de uma elite empresarial, influência direta sobre setores inteiros da economia, logo influência política e capacidade para dominar regras do jogo, e uma grande dose de disrupção social, mostrando que o crescimento económico pode não só coexistir como até alimentar-se de forte desigualdade.

No limite, a criação de um monopólio tão poderoso acabou por inquietar o Governo e obrigar o Estado norte-americano a intervir, aprovando as leis antitrust que levariam ao desmantelamento da Standard Oil em 1911. Curiosamente, foi aí, com o disparar do valor de mercado combinado das empresas que resultaram dessa dissolução, que ele se tornou o primeiro bilionário dos EUA.

Tal como Rockefeller então, Musk é hoje a principal figura do capitalismo tecnológico sem limites, influenciando setores tão diversos como a mobilidade elétrica, as telecomunicações por satélite, a inteligência artificial ou a corrida ao espaço. O rosto de um poder económico que é também, e cada vez mais, um poder cultural e político. Um “trilionário” num momento histórico que volta a estar marcado por crescente desigualdade na distribuição de riqueza e forte polarização social. Ora, quando fortunas individuais acumulam recursos superiores aos de muitos Estados soberanos, é natural que a fronteira entre democracia e oligarquia se torne mais ténue.

Não se trata de colocar um travão à inovação nem demonizar o progresso. Longe disso. Precisamos deles. Mas a realidade mostra uma fragilidade perigosa. A importância histórica de Rockefeller e dessa Gilded Age industrial está no crescimento que gerou, sim, mas também na forma como obrigou a sociedade a reorganizar-se, a redefinir regras e limites. E este é um debate que volta a ser urgente hoje.

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