Aproximar os jovens da política, e combater a desconfiança que sentem em relação ao sistema político e às suas instituições, costuma ser um daqueles objetivos vagos de quase todos os programas eleitorais, mas ignorados na prática por um ecossistema político pouco acessível às vozes e ideias das novas gerações (além da lógica de claque das juventudes partidárias).Essa desconexão com as instituições políticas e a falta de uma educação cívica efetiva no sistema de Ensino alimentam sentimentos de desilusão e exclusão que podem ter consequências nefastas para o futuro das democracias. Se muitos jovens se mobilizam hoje através de outras manifestações de participação cívica, explorando diversas formas de ativismo social e político, muitos outros acabam também por ser “presas fáceis” para movimentos populistas que exploram esse sentimento de exclusão, oferecendo uma narrativa “contra o sistema”, que se apresenta como uma bandeira fácil e tentadora.Urge, por isso, passar das boas intenções a medidas concretas que reforcem a voz dos jovens nas instituições políticas e reflitam as suas preocupações. Um passo sério nesse caminho surgiu esta semana pela voz do presidente da Associação Nacional de Assembleias Municipais, Fernando Santos Pereira, ao defender a consagração legal de Assembleias Municipais Jovens em todos os concelhos. Não como uma iniciativa simbólica ou um evento anual para a fotografia, como acontece hoje, mas como um espaço regular de participação, com impacto real na construção diária da democracia.Estas assembleias podem permitir aos jovens o primeiro contacto com as regras democráticas, os métodos de eleição e os modelos de representação, incentivando a apresentação de propostas concretas para os seus concelhos. Abrir uma via legal de comunicação com a Assembleia Municipal “adulta”, que dê seguimento a propostas e projetos decididos em sede jovem, reservando-lhes até uma pequena verba anual, é uma excelente forma de inclusão, uma experiência democrática concreta que pode influenciar a vida quotidiana desses jovens e a da sua comunidade, fazendo-os sentir que as suas ideias realmente importam e que o poder político não é uma abstração distante.Há, desde logo, um risco evidente a combater: o de transformar estes espaços numa extensão dos aparelhos das juventudes partidárias. Importa, para isso, envolver o sistema educativo, que teria aqui uma boa componente prática para a sua dimensão de cidadania. E assegurar diversidade, criando mecanismos que incluam alunos oriundos de diferentes contextos académicos e sociais.A democracia precisa de renovação. E essa não virá pela simples atualização natural dos cadernos eleitorais, mas sim quando os jovens se sentirem efetivamente parte do processo. Bem desenhadas, as Assembleias Municipais Jovens podem ser um dos instrumentos mais eficazes para transformar um discurso vazio numa prática consequente.