O percurso que marca a história da comunidade cabo-verdiana em Portugal pode ser compreendido através de três grandes etapas: a integração social, a integração económica e a conquista de uma participação política mais expressiva.
Estas etapas não acontecem automaticamente nem seguem necessariamente uma ordem rígida e cronológica. No entanto, ajudam-nos a compreender o caminho percorrido e os desafios que temos pela frente.
i. A primeira etapa: ter para ser, trabalhar para garantir o futuro dos filhos
A primeira geração de cabo-verdianos que se fixou em Portugal enfrentou condições de vida extremamente difíceis. Muitos homens trabalharam na construção civil, nas obras públicas e noutros setores que exigiam mão de obra intensiva, da Lisnave a Jota Pimenta, viveram em casernas, sujeitos a condições precária de alojamento e de trabalho.
Essa realidade ficou eternizada na música Alto Cutelo, interpretada pelo grupo cabo-verdiano Os Tubarões, imortalizada pela voz inconfundível do inesquecível Ildo Lobo, com a composição de Renato Cardoso.
Trata-se de uma geração que ajudou a construir Portugal sem nunca deixar de carregar Cabo Verde no coração.
Muitas mulheres trabalharam como empregadas domésticas, assegurando a alimentação e os cuidados de crianças e idosos nas casas de outras famílias. Outras labutavam na limpeza de escritórios e empresas, “ta labanta ku sukuru anti – manxi ta txiga kaza di otu bez di noti”, muitas vezes em horários difíceis e em condições exigentes.
As primeiras gerações aceitaram trabalhos duros, horários exigentes e, muitas vezes, salários modestos. O seu principal objetivo era garantir habitação, alimentação e educação aos filhos. Não tinham necessariamente condições para criar empresas, acumular património ou participar nos centros de decisão. A prioridade era sobreviver, e assegurar que os filhos tivessem oportunidades que eles próprios não tiveram.
Esta foi uma forma essencial de integração social: através do trabalho e da construção de relações com a sociedade portuguesa.
Contudo, há uma questão que devemos colocar: depois de décadas de trabalho e de contribuição para a economia portuguesa, como podemos transformar esse esforço numa maior autonomia económica e numa participação política mais efetiva?
ii. A segunda etapa: passar de trabalhadores por conta de outrem a produtores de riqueza por conta própria
A integração económica exige mais do que ter um emprego e receber um salário no final do mês. Exige capacidade para criar empresas, investir e participar nos setores onde se tomam decisões económicas.
É aqui que a comunidade cabo-verdiana enfrenta um desafio importante. Não basta que os nossos jovens concluam cursos superiores e consigam empregos qualificados. É igualmente necessário que tenham acesso a financiamento, redes profissionais, oportunidades de negócio e cargos de responsabilidade.
Imagine-se, por exemplo, um jovem cabo-verdiano formado em Engenharia, Gestão ou Tecnologias de Informação. Se encontrar apenas a possibilidade de trabalhar por conta de outrem, poderá construir uma carreira individual. Mas, se tiver acesso a crédito, parceiros e oportunidades de contratação pública ou privada, poderá criar uma empresa, empregar outros jovens e contribuir para o desenvolvimento económico da comunidade.
O mesmo se aplica aos profissionais que trabalham na construção civil, nos serviços, na restauração, nos transportes ou nas atividades domésticas. A experiência acumulada pode transformar-se em empresas de construção e manutenção, negócios de apoio domiciliário, empresas tecnológicas ou projetos de economia social.
Para isso, são necessárias medidas concretas e decisão política que possam ser discutidas nos encontros bilateral entre Cabo Verde e Portugal, apostando em programas de formação empresarial, acompanhamento na criação de empresas, acesso a microcrédito e financiamento bancário e mecanismos de ligação entre empresários experientes e jovens empreendedores.
A comunidade deve também valorizar a poupança e o investimento produtivo, promovendo a criação de negócios sustentáveis em vez de depender exclusivamente do rendimento do trabalho. O objetivo não é abandonar o trabalho por conta de outrem, mas alargar as possibilidades económicas e reduzir os obstáculos à mobilidade social.
iii. A terceira etapa: transformar capacidade económica em influência política
A representatividade política não se compra, nem deve depender da riqueza individual. Conquista-se através da participação cívica, da organização coletiva e da capacidade de apresentar soluções para os problemas da sociedade.
No entanto, uma comunidade com maior autonomia económica tem mais condições para apoiar iniciativas cívicas, financiar legalmente projetos associativos, formar lideranças e participar de forma continuada no debate público.
Em primeiro lugar, precisamos de aumentar a participação dos cabo-verdianos e dos seus descendentes nas associações empresariais, nas organizações profissionais, nos sindicatos e nos conselhos consultivos locais.
Em segundo lugar, devemos incentivar a participação nos partidos políticos, nas assembleias de freguesia, nas assembleias municipais e noutros órgãos de decisão. Isso implica identificar pessoas com capacidade e vontade de servir a comunidade, preparar lideranças e exigir que os partidos valorizem a diversidade da sociedade portuguesa nas suas listas e estruturas.
Em terceiro lugar, precisamos de acompanhar os programas eleitorais, os orçamentos participativos e as políticas públicas que afetam os bairros onde a comunidade vive. Questões como a habitação, a educação, o emprego, o empreendedorismo, a discriminação no acesso às oportunidades e a qualificação profissional devem traduzir-se em propostas concretas, com prazos e mecanismos de avaliação.
A comunidade deve deixar de intervir apenas quando surge um problema ou se aproxima uma eleição. A influência política constrói-se durante todo o mandato, através do diálogo institucional, da apresentação de propostas e da avaliação dos compromissos assumidos.
IV. Honrar o passado, construir o futuro
A geração dos nossos pais contribuiu com o seu trabalho para a construção de Portugal e investiu, muitas vezes com enormes sacrifícios, na educação dos filhos. A geração seguinte conquistou novas qualificações e alargou a presença cabo-verdiana em diferentes profissões. O desafio atual é transformar estas conquistas em maior capacidade empresarial, autonomia económica e participação nas instituições.
Não podemos continuar a medir a integração apenas pelo número de pessoas que trabalham, estudam ou residem em Portugal. Temos também de perguntar quantas empresas criamos, quantos empregos geramos, quanto património conseguimos construir e qual é a nossa participação nos espaços onde se decidem as políticas públicas.
A representatividade política deve ser entendida como uma expressão da maturidade cívica da comunidade, e não como um privilégio de um grupo. Para a alcançar, precisamos de organização, qualificação, independência económica, participação eleitoral e lideranças capazes de representar não apenas os cabo-verdianos, mas o interesse geral da sociedade portuguesa.
Os nossos pais trabalharam para que os filhos tivessem um futuro melhor. A nossa responsabilidade é garantir que esse futuro não se limite a melhores condições individuais de vida, mas se traduza também numa comunidade mais forte, mais autónoma e mais presente nos centros de decisão.
A primeira geração abriu caminho através do trabalho. A segunda alargou esse caminho através da educação. Cabe às gerações atuais consolidá-lo através da criação de riqueza, da organização coletiva e da participação política. É assim que o sacrifício dos nossos pais poderá transformar-se numa conquista duradoura para toda a comunidade.