Da democracia na América

Jaime Nogueira Pinto

Politólogo e escritor

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Os 250 anos da América trouxeram inúmeras reflexões sobre a independência, a natureza política e a História dos Estados Unidos; ainda que, por cá, a reflexão, ou melhor, a perplexa interrogação, tenha sido só uma, ou sobretudo uma: com uma História tão rica e uma Declaração de Independência tão bela, como é que os americanos davam em escolher pela segunda vez alguém tão “tirânico” e tão “pouco democrático” como Donald J. Trump para presidir aos seus destinos?

Na esquerda americana as interrogações e reflexões foram mais variadas. Já não se centraram só no suposto presente “iliberal”, mas também nas insuficiências e vulnerabilidades do passado. Lembrou-se, por exemplo, que os índios e os negros tinham sido, à partida, excluídos da cidadania americana, e que as mulheres só em 1920 tinham tido direitos políticos. E que Jefferson, o principal redactor da Declaração da Independência, que contém a frase “todos os homens são criados iguais”, era também autor de comentários racistas nas Notes on the State of Virginia e dono de centenas de escravos.

Como escreveria Orwell século e meio mais tarde, até – ou sobretudo – nas mais belas utopias, todos os animais eram iguais, mas alguns eram “mais iguais que outros”.

A América de Tocqueville Frank Shakespeare, um intelectual católico americano que foi embaixador em Lisboa no tempo de Ronald Reagan e depois foi para Roma, para embaixador no Vaticano, dizia-me que a América não era uma Democracia, era uma República. E eu, que tive a sorte de descobrir e ler Tocqueville nos anos finais da Universidade, pude perceber isso muito bem.

O jovem aristocrata francês, em viagem ao Novo Mundo para estudar, com Gustave de Beaumont, o sistema prisional americano, ficou fascinado com a América. O fascínio pela revolução e a independência americanas compreendiam-se bem em Tocqueville que, embora tivesse nascido no pós-Revolução, em 1805, conhecia, por antecedentes familiares, a brutalidade da Revolução Francesa: o pai e a mãe tinham escapado por um triz à guilhotina, graças ao Thermidor e à queda de Robespierre, e o avô, Malherbes, tinha sido guilhotinado por ter ousado ser advogado de Luís XVI. Os americanos, ao menos, tinham-se libertado da tutela do “rei Jorge” com graus inferiores de crueldade.

No entanto, a admiração de Tocqueville pelo sistema americano não o impedia de ver com lucidez os perigos e as contradições dos projectos revolucionários, que descreveria em De la Démocracie en Amérique.

Tocqueville via na América a fatal contradição entre Liberdade e Igualdade; e previa que a América e a Rússia viessem a ser os grandes poderes do século XX. Identificava também, com extraordinária intuição, os perigos que encerravam “os séculos democráticos”, com o seu extremo individualismo e materialismo: a saber, a tirania da maioria e a servidão induzida por um doce e insidioso despotismo.

Na sua análise da América, o historiador de L’Ancien Régime et la Révolution também não teve dúvidas em afirmar que o grande regulador e moderador da política americana era a religião. E que a Liberdade e as liberdades políticas, bem como o sentido de justiça que combatia as profundas desigualdades de nascimento e fortuna, vinham do cristianismo.

Assim, na América de hoje, o grande “perigo para a democracia” não será propriamente Trump, mas mais a erosão da religiosidade e do cristianismo, esse grande regulador e moderador da política americana que muitos parecem querer agora descartar e cancelar.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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