Os 250 anos da América trouxeram inúmeras reflexões sobre a independência, a natureza política e a História dos Estados Unidos; ainda que, por cá, a reflexão, ou melhor, a perplexa interrogação, tenha sido só uma, ou sobretudo uma: com uma História tão rica e uma Declaração de Independência tão bela, como é que os americanos davam em escolher pela segunda vez alguém tão “tirânico” e tão “pouco democrático” como Donald J. Trump para presidir aos seus destinos?Na esquerda americana as interrogações e reflexões foram mais variadas. Já não se centraram só no suposto presente “iliberal”, mas também nas insuficiências e vulnerabilidades do passado. Lembrou-se, por exemplo, que os índios e os negros tinham sido, à partida, excluídos da cidadania americana, e que as mulheres só em 1920 tinham tido direitos políticos. E que Jefferson, o principal redactor da Declaração da Independência, que contém a frase “todos os homens são criados iguais”, era também autor de comentários racistas nas Notes on the State of Virginia e dono de centenas de escravos.Como escreveria Orwell século e meio mais tarde, até – ou sobretudo – nas mais belas utopias, todos os animais eram iguais, mas alguns eram “mais iguais que outros”.A América de Tocqueville Frank Shakespeare, um intelectual católico americano que foi embaixador em Lisboa no tempo de Ronald Reagan e depois foi para Roma, para embaixador no Vaticano, dizia-me que a América não era uma Democracia, era uma República. E eu, que tive a sorte de descobrir e ler Tocqueville nos anos finais da Universidade, pude perceber isso muito bem.O jovem aristocrata francês, em viagem ao Novo Mundo para estudar, com Gustave de Beaumont, o sistema prisional americano, ficou fascinado com a América. O fascínio pela revolução e a independência americanas compreendiam-se bem em Tocqueville que, embora tivesse nascido no pós-Revolução, em 1805, conhecia, por antecedentes familiares, a brutalidade da Revolução Francesa: o pai e a mãe tinham escapado por um triz à guilhotina, graças ao Thermidor e à queda de Robespierre, e o avô, Malherbes, tinha sido guilhotinado por ter ousado ser advogado de Luís XVI. Os americanos, ao menos, tinham-se libertado da tutela do “rei Jorge” com graus inferiores de crueldade.No entanto, a admiração de Tocqueville pelo sistema americano não o impedia de ver com lucidez os perigos e as contradições dos projectos revolucionários, que descreveria em De la Démocracie en Amérique.Tocqueville via na América a fatal contradição entre Liberdade e Igualdade; e previa que a América e a Rússia viessem a ser os grandes poderes do século XX. Identificava também, com extraordinária intuição, os perigos que encerravam “os séculos democráticos”, com o seu extremo individualismo e materialismo: a saber, a tirania da maioria e a servidão induzida por um doce e insidioso despotismo.Na sua análise da América, o historiador de L’Ancien Régime et la Révolution também não teve dúvidas em afirmar que o grande regulador e moderador da política americana era a religião. E que a Liberdade e as liberdades políticas, bem como o sentido de justiça que combatia as profundas desigualdades de nascimento e fortuna, vinham do cristianismo.Assim, na América de hoje, o grande “perigo para a democracia” não será propriamente Trump, mas mais a erosão da religiosidade e do cristianismo, esse grande regulador e moderador da política americana que muitos parecem querer agora descartar e cancelar. O autor escreve de acordo com a antiga ortografia