D. Amélia

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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D. Amélia, que viria a ser a última rainha de Portugal, nasceu em 1865, já o DN existia há uns meses. José Alberto Ribeiro, diretor do Palácio Nacional da Ajuda e do Museu do Tesouro Real, acaba de publicar uma biografia da francesa que foi mulher de D. Carlos, mãe de D. Luís Filipe – morto, tal como o pai, no Regicídio – e de D. Manuel, que subiu ao trono muito jovem e foi incapaz de impedir a queda dos Bragança.

Nos pouco mais de dois anos de reinado de D. Manuel II, a rainha D. Amélia foi o esteio do filho, conta o historiador numa entrevista esta sexta-feira publicada no jornal. Foi um esteio insuficiente, tanta era a degradação política do regime, e a dinastia que reinava em Portugal desde a Restauração da Independência, em 1640, acabou a 5 de outubro de 1910. O rei deposto e a rainha-mãe seguiram para o exílio em Inglaterra. Portugal ficou república, até hoje.

Os diários de D. Amélia, tanto os na posse do Estado Francês, como os pertença de um colecionador, foram a base do livro de José Alberto Ribeiro, e permitem-nos ter uma visão mais intimista da rainha. Impressionam, claro, as tragédias pessoais. Ela viu matarem à sua frente o marido e o filho mais velho. Nesse dia, uma cruz foi o que escreveu. E demorou algum tempo a reatar a escrita, sempre em francês, apesar de ter aprendido muito bem a escrever e falar português. Décadas depois foi também testemunha da morte do filho mais velho, esse D. Manuel II, o Desventurado, que se casou já no exílio, mas não deixou descendência.

"Em 1945, D. Amélia visitou Portugal. E foi bem recebida por Salazar e Carmona. E mais ainda pelo povo. À chegada a Lisboa, em Santa Apolónia, foi recebida 'apoteoticamente', sublinha José Alberto Ribeiro. Regressou a muitos lugares que lhe eram queridos, como Sintra (...). E teve um momento a sós junto do túmulo do marido e dos filhos. A fotografia que acompanha este texto é de D. Amélia a sair da Igreja de São Vicente de Fora, onde está o panteão dos Bragança."
"Em 1945, D. Amélia visitou Portugal. E foi bem recebida por Salazar e Carmona. E mais ainda pelo povo. À chegada a Lisboa, em Santa Apolónia, foi recebida 'apoteoticamente', sublinha José Alberto Ribeiro. Regressou a muitos lugares que lhe eram queridos, como Sintra (...). E teve um momento a sós junto do túmulo do marido e dos filhos. A fotografia que acompanha este texto é de D. Amélia a sair da Igreja de São Vicente de Fora, onde está o panteão dos Bragança." FOTO: Arquivo DN

O DN, tão antigo que noticiou o casamento, o nascimento dos filhos, o Regicídio, a partida dela e dos poucos sobreviventes da família real para o exílio, também deu a notícia da sua morte, em França. E igualmente do funeral de Estado que lhe foi feito, em finais de 1951, depois de os restos mortais terem sido trazidos para Portugal. Está sepultada no Panteão dos Bragança, junto de D. Carlos, D. Manuel II e D. Luís Filipe.

Salazar tentou dar-se bem com os monárquicos, como com outras correntes que apoiaram o Estado Novo, mas, de facto, não deu quaisquer passos para restabelecer a monarquia. O presidente Carmona, tal como muitos militares, era republicano, e sobretudo queria uma república diferente daquela que ajudou a derrubar em 1926. A partir de 1932, a extinção do ramo português de D. Pedro IV também complicou as pretensões dos monárquicos, mesmo que o ramo brasileiro e os primos descendentes de D. Miguel promovessem um casamento reunificador e D. Amélia até fosse madrinha de D. Duarte Pio, o atual Duque de Bragança. A própria rainha entendia que tudo estava nas mãos de Salazar. “Nada pode ser feito sem o professor Salazar”, dizia, segundo o biógrafo.

Em 1945, D. Amélia visitou Portugal. E foi bem recebida por Salazar e Carmona. E mais ainda pelo povo. À chegada a Lisboa, em Santa Apolónia, foi recebida “apoteoticamente”, sublinha José Alberto Ribeiro. Regressou a muitos lugares que lhe eram queridos, como Sintra, e foi a Fátima, de que se tornara devota no exílio. E teve um momento a sós junto do túmulo do marido e dos filhos. A fotografia que acompanha este texto é de D. Amélia a sair da Igreja de São Vicente de Fora, onde está o panteão dos Bragança.

A monarquia constitucional portuguesa foi atribulada. Nasceu da Revolução Liberal de 1820, teve uma guerra civil entre dois irmãos, foi marcada por governos mais ou menos incompetentes, apesar de alguns ministros que merecem dar nomes a avenidas e ruas, e foi terrivelmente marcada, perto do fim, por um Regicídio por dois membros da Carbonária, movimento que não acreditava que a república viria através do voto, apesar de haver um Partido Republicano legal.

Mas a forma como hoje D. Carlos é visto pelos portugueses, um rei amante das artes e apaixonado pelo mar, revela uma característica bem portuguesa que é a capacidade de seguir em frente e reconciliar-se com a história. A República Portuguesa, que nasceu num tempo em que, tirando França e Suíça, na Europa, mandavam as monarquias, já assistiu a duas mudanças de regime, e continua sólida, e solidamente democrática. Tão sólida que pode hoje reconhecer o legado de reis e rainhas, não só os da Reconquista ou os das Descobertas, mas também alguém como a rainha D. Amélia, a francesa, que por conhecer bem a realeza europeia, percebeu a excelência da coleção de coches existente no picadeiro real e esteve na fundação do mais extraordinário museu português, o Museu Nacional dos Coches, originalmente Museu dos Coches Reais.

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