Estava calor, sem surpresas. Não havia sombras evidentes, nem pontos de água abundantes, e a água dos lavabos não era potável (era o que estava escrito nos avisos). No meio daquele deserto polvilhado com concertos de grandes músicos, emergiam da areia umas casinhas pré-fabricadas com letreiros luminosos. Aí, desde que pagassem, as pessoas podiam refrescar-se com uma pletora de bebidas, calóricas ou não, mas certamente menos hidratantes do que simples água. Uma das casinhas, construída em madeira, evocava um saloon típico dos westerns, que, aos meus olhos, só poderia ser distópico, não só por não estarmos no século XIX a cavalgar nas estepes americanas, mas porque, felizmente, ainda temos leis que nos impedem de transportar armas. Na fachada daquela construção efémera, conseguia ler as palavras “casino” e “BacanaPlay”. Depois, por isto, concluí que afinal estávamos mesmo numa distopia.Foi assim que senti o Rock in Rio, ainda que as mensagens dos artistas do festival fossem, na sua maioria, profundas e equilibradas, com brio, e compensassem esta sensação de invasão publicitária. Ea música era boa.Eu percebo que tudo tem um preço mensurável numa unidade monetária. É o mundo que escolhemos ter, mas virar-me para o lado e tudo ser patrocinado por uma coisa qualquer – até a roda gigante, que imprimia o ar mais romântico possível ao festival, era patrocinada pelo TikTok – é esgotante para quem só quer apreciar a música. É mais um elemento que tem de ser absorvido pelos sentidos e que foi pensado para criar necessidade. É o preço a pagar para que haja festivais e toda uma indústria em torno de determinados géneros musicais. Os palcos eram da Super Bock e de outras marcas. Até havia uma barraquinha da CP (os transportes públicos são essenciais, ressalvo).. Em relação ao casino improvisado, era uma simulação semelhante às que surgem sob a forma de aplicações nos telemóveis, tendo em conta o patrocínio que tinha ou a marca que evocava. Porém, deveria aparecer com uma advertência, mais evidente do que o letreiro que o anunciava, para os malefícios do jogo, para a possibilidade de criar dependência – e não me parece que dizer “jogue com moderação” seja suficiente. De forma caricatural, apelar à moderação num jogo que é construído para criar adição é proporcional a apelar numa taberna no meio de Arrakis – planeta fictício mais conhecido por Duna, criado pelo escritor Frank Herbert na saga de livros e filmes homónima – plena de cervejas e bebidas destiladas para que as pessoas não as consumam. Já várias iniciativas partidárias chegaram ao Parlamento com o objetivo de criar alguma regulação além do que está previsto no Código da Publicidade. No entanto, ainda não aconteceu.Ir a um festival é levar um banho de música, que em princípio é o que queremos, e acabamos por entregar a alma às marcas, que é uma inevitabilidade, dado o desenho do mundo.Sempre pensei que o mundo é o que fazemos dele.Estou agora preparado para sentir algo semelhante no NOS Alive, porque a música vale a pena, mas tenho de deixar uma nota sobre festivais pequenos, onde as pessoas podem ser desafiadas por artistas desconhecidos para os públicos mais vastos.Como não vou tocar a nenhum festival dos que estou prestes a referir – apesar de já ter tocado –, posso falar deles sem qualquer pudor ético.."Ir a um festival é levar um banho de música, que em princípio é o que queremos, e acabamos por entregar a alma às marcas, que é uma inevitabilidade, dado o desenho do mundo.".Este ano não há Andanças, porque agora, aparentemente, só acontece a cada dois anos. A próxima edição já foi anunciada pela Pédexumbo – a associação que faz o festival – para 2027. Pelo esforço de uma organização pequena e com recursos escassos – apesar do apoio que a associação recebe da Direção-Geral das Artes, que implica candidaturas sucessivas –, o festival dedicado à dança de matriz rural e não só acontece desde 1996. Não quero arriscar demasiado, porque não tenho contacto regular com a organização, mas posso assegurar os leitores de que não haverá palcos patrocinados.O mesmo acontece com o Tradidanças, organizado pela associação ATASA em parceria com o Município de São Pedro do Sul. Não é um festival de nicho na mesma medida em que não é desprovido de artistas internacionais e nacionais de elevada qualidade. É para famílias, tem atividades paralelas, como caminhadas pela natureza e workshops de práticas tradicionais.Garanto que lá não haverá palcos patrocinados por grandes marcas, nem excesso de informação. Porém, há largas dezenas de pontos de água espalhados pelos vários espaços, e ainda bem, porque o calor será idêntico ao do Rock in Rio.