Muitas crianças vivem dias tão cheios que sobra pouco espaço para simplesmente serem crianças. Saem de casa muito cedo e regressam já o dia vai longo, numa sucessão de escola, atividades extracurriculares e compromissos organizados pelos adultos. Música, inglês, dança, futebol, natação, apoio ao estudo, teatro… entre tudo isto, corre-se de um lado para o outro, lancha-se pelo caminho e olha-se constantemente para o relógio. Como se o tempo tivesse de estar sempre preenchido e como se parar fosse um luxo que já não cabe na agenda.
Mas onde ficou o espaço para simplesmente ser criança?
Vivemos numa sociedade que valoriza a produtividade e a eficácia. Desde cedo, parece instalar-se a ideia de que cada minuto deve ser aproveitado para aprender alguma coisa, desenvolver uma competência ou preparar o futuro. Como se a infância fosse apenas uma sala de espera para a vida adulta.
Talvez seja altura de fazermos uma pergunta incómoda: temos medo do tempo livre das crianças?
O tempo livre confronta-nos com o vazio, com o aborrecimento, com a ausência de planos. E, no entanto, é precisamente nesses momentos que acontecem algumas das experiências mais importantes do desenvolvimento. É quando não há nada programado que a criança inventa uma brincadeira, cria uma história, constrói um mundo imaginário, resolve um problema ou descobre um interesse genuíno.
Brincar não é uma perda de tempo. É uma das formas mais sofisticadas de aprendizagem. É através da brincadeira que as crianças desenvolvem a criatividade, a autonomia, as competências sociais, a capacidade de resolver conflitos e de regular emoções. Quando lhes retiramos sistematicamente esse espaço e tempo, estamos a privá-las de uma ferramenta fundamental para crescer.
Há ainda outra questão que merece reflexão. Ao enchermos as agendas das crianças, estaremos verdadeiramente a responder às suas necessidades ou às nossas? Muitas vezes, os horários excessivamente preenchidos parecem refletir mais a ansiedade dos adultos do que os interesses das próprias crianças. Queremos protegê-las da frustração, da espera, do tédio. Queremos que estejam ocupadas, estimuladas, acompanhadas. Queremos sentir que estamos a proporcionar-lhes tudo. E queremos também, quem sabe, ter mais tempo para trabalhar.
Crescer implica também aprender a lidar com o desconforto. Esperar pela sua vez. Tolerar que nem sempre há entretenimento disponível. Descobrir o que fazer quando ninguém organiza o tempo por elas. Uma criança que nunca experimenta o vazio dificilmente aprenderá a preenchê-lo de forma criativa.
Paradoxalmente, numa época em que tanto se fala de saúde mental, parece haver cada vez menos espaço para a pausa. A infância transformou-se, em muitos casos, numa maratona de compromissos. E as crianças, apesar de pequenas, carregam frequentemente o peso de expectativas muito grandes.
Talvez o desafio não seja oferecer mais atividades, mas oferecer mais tempo. Tempo para brincar. Tempo para estar com os amigos sem objetivos definidos. Tempo para sonhar acordado. Tempo para não fazer nada.
Porque uma infância saudável não se mede pelo número de atividades frequentadas, mas pela qualidade das experiências vividas.
E nenhuma criança deveria precisar de uma agenda para conseguir ser criança.