Consumo sob pressão: o que muda quando há inflação e medo

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Em contexto de guerra, instabilidade geopolítica, inflação persistente ou forte volatilidade económica, o consumo deixa de ter substrato racional para ser muito afetado pelo reflexo do medo. No final, está sempre condicionado. E é uma derivada das perceções. Ou seja, por um lado sofremos do exagero da segurança psicológica (a guerra é lá longe e primeiro que cá chegue!...), mas, por outro, vivemos em medo permanente, dado que o povo português é dos povos mais medrosos que existem, explicando o medo uma boa parte das ações do consumidor português. Explica, portanto, comportamentos. Por exemplo, uma boa parte da resistência em empreender vem precisamente do medo.

Há preditores relativamente claros destes comportamentos.

O primeiro é a incerteza. Quando as pessoas não conseguem antecipar preços, rendimentos ou emprego, tendem a adiar compras não-essenciais, reforçando poupança (que nunca se consegue), precaução e concentração no básico.

O segundo é a perda de poder de compra. A subida dos preços, sobretudo em bens alimentares, energia, habitação e crédito, comprime o rendimento disponível e obriga a escolhas mais defensivas. O consumidor compara mais, troca marcas, reduz quantidade, desce de gama e compra menos por impulso.

O terceiro é a perceção de escassez. Mesmo quando a escassez não é real, basta que seja percebida para alterar comportamentos. Vê-se então o açambarcamento, a compra antecipada, a procura por stocks domésticos de segurança e uma maior sensibilidade à disponibilidade imediata.

O quarto é a erosão da confiança. E o fado. Quando a confiança cai, a consequência é também a queda da vontade de arriscar: menos compras de longo prazo, menos investimento familiar, mais prudência. Em paralelo, cresce a procura de promoções, formatos low cost e canais que deem sensação de controlo. É o nosso fado.

O quinto é a fadiga emocional. Em ambientes prolongados de tensão, o consumo torna-se errático. Uns retraem-se totalmente. Outros compensam emocionalmente com pequenos (ou grandes) consumos que lhes devolvam alguma normalidade, prazer ou estatuto. Aqui, o tempo da guerra e de fecho do Estreito de Ormuz ditarão muito do que se vai passar daqui para a frente.

Tudo isto mostra que o consumo não responde apenas ao preço. Responde a contexto, perceções, expectativas, ansiedade e medo. Muito medo.

É aqui que faz imensa falta a formação financeira, o conhecimento da lógica de ciclos, os vieses a que somos acometidos para aumentarmos a capacidade de leitura do contexto, melhorarmos decisão sob pressão, distinguirmos barulho permanente de um apito esporádico, gerirmos orçamentos, percebermos risco(s), planearmos, compararmos, negociarmos e escolhermos melhor.

Em tempos voláteis, a formação financeira, económica e de gestão não é um supérfluo. Nunca é. Mais agora. Passa a ser um mecanismo de defesa. Ajuda famílias, gestores e profissionais a não reagirem apenas por impulso, medo ou efeito de manada.

Quem compreende inflação, cadeias de abastecimento, taxa de juro, risco e comportamento do consumidor decide melhor. E quem decide melhor protege melhor os seus recursos.

Num mundo instável, consumir bem é também uma competência.

As competências constroem-se. Constroem-se ao longo da vida. E é isso que procuramos fazer em executive education. Se estivéssemos sempre em crescimento, provavelmente não precisaríamos de grandes conhecimentos de gestão e de literacia financeira. Haveria apenas toques de Midas.

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