Consequências económicas e sociais do desemprego gerado por IA, automação e robótica e mecanismos de mitigação e compensação

Jorge Costa Oliveira

Consultor financeiro e business developer

Publicado a

Parece inquestionável que a transição para uma economia impulsionada pela Inteligência Artificial (IA), a automação avançada e a robótica vai permitir ganhos de eficiência e aumentar a produtividade, desde logo através de cortes significativos de pessoal.

A atual revolução tecnológica em curso deixou de ser uma promessa futurista para se tornar num dos pilares da produção industrial e de serviços contemporânea, causando um aumento do desemprego (assumido, desde logo, pelos gestores das grandes empresas tecnológicas) com o inevitável cotejo de consequências económicas e sociais negativas.

Nesta fase inicial da revolução tecnológica da IA, automação e robótica, ainda é difícil apurar os números globais deste desemprego, mas os dados conhecidos apontam já para centenas de milhar de empregos perdidos – c. 374.000 empregos [essencialmente nos EUA] desde janeiro de 2023, tomando como referência o AI Layoffs Tracker do DisplaceIndex. O número é seguramente maior, sobretudo porque é muito difícil calcular as cada vez mais situações de desemprego por “não criação de emprego”.

 

1. Mitos e realidades relativos ao desemprego gerado pela IA, a automação e a robótica

Antes de nos debruçarmos sobre as consequências económicas e sociais, é fundamental desmistificar alguns mitos sobre o avanço tecnológico.

Um dos mitos diz que “a IA e a robótica vão extinguir todo o trabalho humano.

Mutação, não extinção: Não há dados presentes, nem exemplos de revoluções tecnológicas do passado que comprovem esta ideia. A IA, a automação e a robótica deslocam tarefas e transformam profissões. Mas não é crível que extingam o trabalho humano, nem sequer uma larga percentagem deste.

Outro mito que se ouve frequentemente é que “novas indústrias criam sempre empregos suficientes para compensar.

Desproporção quantitativa: Não faltam analistas qualificados a achar que o novo emprego criado superará o destruído. É difícil fazer previsões. Em parte porque estamos na fase inicial da transição desta revolução tecnológica. Mas também, porque o alcance da revolução tecnológica promovida pela IA é muito mais amplo que o das anteriores revoluções tecnológicas, como a dos computadores ou a da internet. Setores de alta tecnologia criam empregos de elevadíssima qualificação, mas em quantidade substancialmente menor do que as indústrias e serviços tradicionais que substituem. E a IA, em especial quando se atingir a AGI, deverá tocar virtualmente todas as indústrias, serviços e setores económicos. No entanto, é muito provável que a taxa de destruição de empregos e não criação de vagas supere a velocidade de requalificação, pelo menos temporariamente; o busílis radica em apurar quão longo será esse “período temporário”.

Outro mito generalizado reza que “o desemprego por automação afeta apenas a mão de obra não qualificada.

Invasão do trabalho cognitivo: Presentemente, podemos constatar como a IA generativa e os modelos de linguagem grande (LLM) afetam diretamente setores de colarinho branco (programação, análise jurídica, redação, contabilidade e design).

Vejamos, então, quais são as principais consequências económicas e sociais deste desemprego.

 

2. Consequências económicas

O desacoplamento entre produtividade e emprego gera transformações profundas na estrutura macroeconómica global:

  • Polarização salarial e desigualdade de rendimentos: A margem de lucro gerada pela eficiência da IA, da automação avançada e da robótica desloca-se do fator Trabalho para o fator Capital. Os proprietários das tecnologias e os detentores do capital capturam a maior parte do valor criado, enquanto a massa assalariada perde poder de negociação. Tudo indica que aumentará ainda mais a desigualdade de rendimentos, com os principais acionistas das empresas beneficiando desta revolução tecnológica (<1% do total) a acumularem ainda maior riqueza e rendimento disponível.

  • Erosão da classe média: Tradicionalmente, empregos industriais e rotineiros de escritório serviam como escada de mobilidade social para a classe média. A automação desses papéis comprime a pirâmide social, empurrando trabalhadores para empregos de serviços de baixa qualificação e baixos salários ou exigindo competências hiperespecializadas de difícil acesso. Em revoluções tecnológicas passadas isso também sucedeu, mas o âmbito da revolução – ex: computadores, internet – era relativamente circunscrito; na atual revolução tecnológica decorrente da adoção generalizada de IA, automação e robótica, deverá chegar a praticamente todas as indústrias e setores económicos.

  • Crise da procura agregada: Robôs e modelos de IA não adquirem bens de consumo, não pagam impostos sobre o rendimento nem alimentam o comércio local. Se o emprego diminuir e a massa salarial estagnar, haverá uma contração da capacidade de consumo global, criando uma situação dilemática em que a capacidade de oferta da indústria é elevada e crescente, enquanto a procura agregada diminui.

 

3. Consequências sociais

As repercussões no tecido social não são menos graves que as consequências económicas e extrapolam os meros indicadores subjacentes à variação do PIB:

  • Crise de identidade e sentido de utilidade: O trabalho serve não apenas para garantir a subsistência financeira, mas como elemento estruturante da identidade individual e integração comunitária. A escassez de empregos significativos amplia quadros de ansiedade social, alienação e desajustamento pessoal.

  • Pobreza estrutural e dependência do Estado: Muitos dos trabalhadores seniores substituídos por IA, automação ou robótica, dificilmente conseguirão encontrar novo emprego; este desemprego estrutural já fora observado aquando da deslocalização para países em desenvolvimento de muitas unidades de produção de manufaturas, mas o impacto em certos setores económicos é muito inferior ao efeito transversal da revolução tecnológica da IA, automação e robótica. O desemprego decorrente da não-criação de postos de trabalho afeta desproporcionalmente as gerações mais jovens que ingressam no mercado laboral. Sem capacidade de absorção por indústrias emergentes, gera-se uma dependência crescente de programas de apoio estatal e redes de proteção social e familiar.

  • Pressão sobre as finanças públicas: A diminuição de trabalhadores no ativo reduz as receitas fiscais (impostos sobre o rendimento e contribuições para a segurança social), ao mesmo tempo que aumenta a despesa pública com subsídios e apoios sociais, colocando em risco a sustentabilidade dos [poucos] Estados de bem-estar social.

 

4. Mecanismos de mitigação e compensação

As consequências da adoção de IA, automação e robótica, afetam interesses de natureza diversa; a principal preocupação está centrada na redução do rendimento dos desempregados e não-empregados (nos casos de “desemprego invisível” por não-criação de emprego), mas também é necessário acautelar a queda das receitas fiscais do estado.

Para enfrentar a transição, organizações internacionais, especialistas e governos têm vindo a ponderar vários mecanismos de mitigação e compensação.

A. Requalificação massiva (Reskilling)

A “revolução da requalificação” é a prioridade número um. Governos e empresas devem investir em programas educacionais e de formação profissional que ensinem os estudantes e os trabalhadores a colaborar com a IA (IA-Human teaming), focando-se em competências que as máquinas não replicam facilmente, como:

  • Pensamento crítico e gestão de complexidade;

  • Inteligência emocional e liderança;

  • Literacia de dados e operação de sistemas de IA.

B. Rendimento básico universal (RBU)

O RBU é um rendimento mínimo garantido pelo Estado consistindo num pagamento [em numerário] regular feito a [todos] os cidadãos a fim de garantir um patamar de vida condigna, independentemente da sua situação financeira, familiar ou profissional para garantir a subsistência, atenta a escassez estrutural de postos de trabalho. O objetivo é desligar a sobrevivência básica da necessidade de um emprego formal tradicional.

Já em 2017 o relator especial das Nações Unidas sobre Pobreza Extrema e Direitos Humanos, Philip Alston, sugeria que a garantia de um RBU poderia ser uma forma eficaz de promover e proteger os Direitos Humanos: “As pessoas sentem-se expostas, vulneráveis, assoberbadas e impotentes, e algumas estão a ser sistematicamente marginalizadas tanto em termos económicos como sociais”, acrescentou. “Mas a comunidade de Direitos Humanos pouco se tem debruçado sobre este consequente fenómeno de insegurança económica”. “Em muitos aspetos, o rendimento básico constitui uma solução ousada e imaginativa para problemas prementes que estão prestes a tornar-se bastante mais complicados em resultado do caminho que a economia global parece estar a seguir inexoravelmente”, disse.

Todavia, apenas algumas experiências restritas em poucos países têm sido feitas relativamente à criação de RB”U” – na Finlândia (2000 cidadãos desempregados), no Brasil (90.000 moradores de Maricá), no Quénia (20.000 adultos espalhados por 200 aldeias rurais), no Canadá (em Dauphin, Manitoba, e 4000 pessoas de baixa renda no Ontário), nos EUA (no Alasca, através do Alaska Permanent Fund, e em 125 residentes de zonas desfavorecidas em Stockton, Califórnia), e na Índia (6000 pessoas em 20 aldeias). Todos os governos que montaram experiências-piloto de RBU, acabaram por restringir fortemente o seu âmbito, devida à [elevada] despesa pública que podia envolver.

A crescente concentração de riqueza nos detentores do capital tecnológico e nas empresas beneficiárias de ganhos de produtividade advenientes da substituição de força laboral humana por IAs, tem gerado propostas para que parte significativa da receita pública para afetar ao RBU provenha de tributação sobre essas empresas.

Contudo, estudos e relatórios do Banco Mundial (2020) e da OCDE (2018) mostram que, em economias de médio e elevado rendimento, financiar um RBU sem desmantelar serviços públicos vitais (como Saúde e Educação) exigiria reestruturações fiscais profundas e aumentos significativos na arrecadação de impostos. A OIT (2018)  estimou os custos globais de um RBU fixado na linha de pobreza, concluindo que o custo médio oscilaria entre 20% e 30% do PIB em muitos países, alertando para os riscos orçamentais e redistributivos face ao modelo tradicional de proteção social baseada em direitos contributivos. Razão pela qual o Institute for Fiscal Studies (IFS) (2025), não obstante a simplicidade de um RBU universal, o elevado custo fiscal associado aconselha que se continue a optar por apoios sociais direcionados (means-tested).

C. Taxação sobre a automação (“imposto sobre robôs”)

Proposta por analistas e académicos, a ideia consiste em tributar – mediante um imposto pigouviano sobre a IA e a automação – as empresas que substituem trabalhadores humanos por IA e automação para compensar a perda de arrecadação fiscal proveniente do rendimento do trabalho humano e financiar a transição laboral. A receita seria canalizada para:

  • Fundos de Segurança Social.

  • Financiamento de reformas antecipadas para trabalhadores em idade avançada que não conseguem a requalificação.

Embora muitos especialistas e académicos considerem este “imposto sobre robôs” como uma das mais importantes medidas a tomar para reduzir os efeitos do desemprego criado pela adoção de IA e automação, convém ter presente que as grandes empresas tecnológicas [norte-americanas] são presentemente algumas das entidades que pagam menos impostos sobre o rendimento, que não hesitam em recorrer a vergonhosos métodos agressivos de “planeamento fiscal”, com plena cobertura e apoio do governo dos EUA, em boa medida decorrente de fortunas gastas em lobbying por essas empresas. Tudo indica que este mecanismo de funcionamento – lobbying → apoio do governo às grandes empresas → fuga a responsabilidades legais com impunidade – será replicado no que toca à adoção de um “imposto sobre robôs”.

D. Redução da semana de trabalho

Outra medida proposta, e já implementada em alguns países, consiste na redistribuição do trabalho restante entre mais pessoas, através da redução da carga horária semanal (ex: semana de 4 dias), sem perda de salário, permitindo manter níveis elevados de emprego sem redução salarial proporcional, aproveitando os ganhos de produtividade gerados pela IA e pela automação avançada. Esta solução, porém, reduz os tão badalados ganhos de produtividade e desincentiva a [rápida] adoção e difusão de IA, automação e robótica.

Estes mecanismos não são excludentes e a adoção de alguns deles implicará o redesenho de políticas económicas e sociais e a adoção de novas políticas públicas.

A resistência das grandes empresas, em especial das grandes tecnológicas, em relação à adoção de mecanismos ou políticas públicas que lhes toquem no bolso e a pusilanimidade, quando não aberta proteção, de muitos governos, não permite grandes otimismos. Em especial quando se trata de grandes tecnológicas e multinacionais americanas, atenta a proteção de que gozam por parte do governo dos EUA.

A mera cooperação internacional parece também altamente improvável, mesmo entre países da OCDE, considerando a forma agressiva como os países competem entre si pela captação de investimento, em especial em setores estratégicos para a economia do futuro, como é o caso vertente.

A adoção de IA, automação avançada e robótica é imparável em todos os países e em todos os setores económicos. Em breve será a locomotiva ou o catalisador do crescimento económico dos países desenvolvidos e da China, arrastando uma série de setores económicos gradualmente mais dependentes da revolução tecnológica em curso.

O desafio das próximas décadas não deve ser travar a presente inovação tecnológica em IA, automação avançada e robótica (que provocaria uma hecatombe nos mercados financeiros). O grande teste que temos por diante deve focar-se na sua regulação adequada e na melhoria da governação económica, em especial focada numa redistribuição dos ganhos extraordinários de produtividade e eficiência gerados pela revolução tecnológica em curso, garantindo que o progresso decorrente da adoção de IA, automação avançada e robótica se traduza em maior bem-estar coletivo e não em exclusão social ou em ainda maior desigualdade social.

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