A dificuldade da crónica está (descubro-o agora) em manter um tom de conversa cordial e próxima, sem cair na armadilha das confissões pessoais e íntimas, que estão naquela zona do que se não pode escrever, mas que, como tudo o que se não pode fazer, constitui uma tentação permanente.
Afasto portanto da cena destas crónicas os meus males, vividos e (mais ou menos) sentidos, e descrevo a minha mente, hoje, na frente da crónica por escrever, como um antigo Ferragosto (15 de agosto) que, ainda jovem, fui surpreender em Roma.
Nunca tinha visto uma cidade tão deserta de gente, tão fechada para os comércios, tão calada no meio de dois verões. Nada funcionava, mas não era preciso que funcionasse. “É Ferragosto” justificavam-se os raros passantes.
Eu não creio que hoje seja possível, em Roma ou em qualquer outro lugar, um tão radical Ferragosto, mas o vazio que ele nesse tempo orgulhosamente ostentava é semelhante ao estado da minha mente, hoje, dia 16 de agosto.
Entre dois verões, isto é, entre duas levas de veraneantes, o tempo suspende-se nas praias mais pequenas, o próprio céu parece tirar férias da intensidade do sol e até o vazio se torna mais doméstico e convivial.
Um ministro israelita, de sua graça Ben Gvir, propõe calmamente o assassinato em massa de toda a população palestiniana de Gaza. Se eu denunciar isto, sou antissemita? Ter sido vítima confere legitimidade moral para se ser carrasco? Como estamos ainda em Ferragosto, estas questões perdem-se nas múltiplas notícias da barbárie do mundo em que vivemos, e voltamos à espreguiçadeira sem mais reação, porque já estamos informados.
Será por isso que a minha mente escolhe, por refúgio, esvaziar-se e fazer regressar à memória àquele 15 de agosto longínquo, quando fui encontrar a cidade de Roma abandonada e adormecida ao sol? Hoje as cidades não podem adormecer, porque os turistas as percorrem sem descanso e as mantêm acordadas e vigilantes, queiram elas ou não. Mas estar vigilante não implica prestar a devida atenção ao mundo, porque miríades de atrações, rápidas e superficiais, desviam os nossos olhos para um caleidoscópio de eventos em que se diluem a barbárie e o terror. E isso convém aos promotores do caos.
Se a crónica foge a falar das dores pessoais será então para falar das desgraças do mundo? Não podemos abstrair delas (“vimos, ouvimos e lemos”, etc.), mas não temos direito, até por defesa da saúde mental, a uma conversa diferente? Ou a uma conversa sobre a possibilidade ou impossibilidade de uma conversa, coisa que o poema muitas vezes é?
Mas a prosa tem um contrato diferente com o leitor. Por digressiva que seja, para contornar o seu vazio, a crónica propõe-se conversar com o leitor e conversar sobre alguma coisa da vida.
Na minha crónica passada, falei do bloqueio da escrita. Não me acontece o mesmo com a prosa: aqui as ideias envolvem-se umas nas outras e a escrita vai acompanhando essa deriva, esse pensar à bolina, e só no fim saberá o autor se vale alguma coisa o que escreveu e saberá o leitor se algo justificou ter lido o texto até ao fim. Ou se, ao contrário, o leitor se sente como no final de um poema de Alexandre O’Neill, que reproduzo a seguir: