Na Divina Comédia, de Dante Alighieri, o inferno tem nove círculos.
No primeiro, o limbo, estão virtuosos, como Platão ou Homero, que por terem nascido antes de Cristo não foram batizados. Não sofrem tormentos, mas estão privados da visão de Deus.
No segundo, o da luxúria, a mais ilustre inquilina é Cleópatra, no terceiro estão os gulosos, no quarto os avaros, entre os quais papas e outros clérigos obcecados pela riqueza, no quinto, os irados, no sexto, os hereges, no sétimo, os violentos, como Átila, o rei dos Hunos, no oitavo os fraudulentos.
E no nono, já paredes meias com o senhorio do edifício, Lúcifer, os condenados por traição, como Brutus, conspirador da morte de César, ou Judas Iscariotes, que entregou Jesus à cruz.
E também o menos famoso Ugolino della Gherardesca, conde de Donoratico.
Líder dos gibelinos na cidade de Pisa, o conde traiu a sua fação a favor da rival, a dos guelfos, naquele emaranhado de conflitos entre os defensores do imperador romano e os apoiantes do papa dos séculos XII a XIV.
Derrotado, foi condenado a morrer de fome, numa cela da Torre de Muda, cujas chaves foram atiradas ao rio Arno, com os filhos, Gaddo e Ugoccione, a seu lado. Consta que, sentindo mais fome do que tristeza, Ugolino acabou por comer os cadáveres dos filhos.
Contam-no não só o citado Dante, na Divina Comédia, mas também Jorge Luis Borges, no conto A Espera, e Domingos Sequeira, na gravura A Morte do Conde Ugolino.
A cerca de 237km em linha reta da Pisa do Conde Donoratico fica a pequenina Anguillara Veneta, de onde membros da família Bolzonaro, ainda com “z”, emigraram para o Brasil.
Como gibelinos traidores de guelfos, os Bolsonaro atuais, já grafados com “s”, também traíram um lado, o Brasil, em favor de outro, os EUA.
Jair, o pai, bateu continência à bandeira americana, declarou-se com um constrangedor “I love you” não correspondido a Donald Trump, fugiu para o norte do continente americano, logo após perder as eleições de 2022, e tentou um golpe no país democrático em que nasceu.
Quatro anos depois, logo após em campanha ter oferecido de bandeja a Washington os minerais raros brasileiros, Flávio também escapuliu para o mesmo destino.
Pelo meio, Eduardo, outro fugido nos EUA, pediu a Marco Rubio para taxar produtos de empresas brasileiras acima da média mundial.
Como os Gherardesca, o pai Jair cumpre 27 anos de prisão por golpe, o filho Eduardo foi condenado a quatro, mas fugiu para os EUA, aonde já chegou Flávio, a braços com duas investigações por lavagem de dinheiro e corrupção.
Só não estão na mesma cela: Jair cumpre pena numa mansão de 400 metros quadrados, com piscina, jardim, dois andares e três lugares de garagem, em Brasília, e Eduardo e Flávio vivem luxuosamente nos EUA à conta, suspeita a polícia, da generosidade do corrupto-mor do Estado, Daniel Vorcaro, cujo dinheiro roubado os sustentará.
Não, a situação deles não é tão dantesca como a de Ugolino, Gaddo e Ugoccione relatada na Divina Comédia. Aliás, a família Bolsonaro sempre esteve muito longe de ser divina, mas muito perto de ser comédia.