Com que “inteligência” vamos sobreviver?

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O nosso tempo não é apenas acelerado, pois está a ser capturado por narrativas que se apresentam como neutras, técnicas e inevitáveis, quando na verdade, são profundamente ideológicas. A tecnologia, em particular a Inteligência Artificial, deixou de ser um instrumento entre outros para se tornar o eixo em torno do qual se organiza a imaginação do futuro. E quando o futuro deixa de ser plural, torna-se perigoso.

A ideia de que mais tecnologia significa automaticamente mais progresso humano é um erro fundador, que raramente é questionado. Esta equivalência, repetida até à exaustão, serve interesses muito concretos. O progresso técnico é mensurável, mas o progresso humano não. Um algoritmo pode ser avaliado em percentagens, velocidade e escala, no entanto, a dignidade, a autonomia e o sentido da vida não cabem em gráficos trimestrais. Assim, o que não é mensurável torna-se descartável.

O primeiro grande alerta para o futuro é a substituição da decisão pela delegação. Delegamos na máquina a escrita, o cálculo, a escolha, o diagnóstico e, pouco a pouco, delegamos também a responsabilidade. Quando algo corre mal, já não há sujeito, há “o sistema”, “o modelo” e “o algoritmo”. Esta diluição da responsabilidade é talvez a maior ameaça ética do nosso tempo, pois uma sociedade que não sabe apontar responsáveis é uma sociedade que abdica da justiça.

O segundo alerta é a erosão lenta da inteligência humana, não por falta de capacidade, mas por falta de exercício. Pensar é um ato físico, dispendioso e cansativo, que exige tempo, silêncio e erro. A promessa tecnológica é eliminar o esforço, mas uma mente sem esforço não é libertada, é atrofiada. Quando deixamos de escrever, de memorizar, de calcular e de imaginar, não ganhamos tempo, perdemos a estrutura cognitiva. O cérebro adapta-se ao que lhe é pedido e se lhe pedimos pouco, ele devolve pouco.

O terceiro alerta é a transformação do ser humano em variável residual. Num modelo económico cada vez mais automatizado, o trabalho humano passa de central a incómodo. Fala-se de “excedente populacional” com a mesma frieza com que se fala de excedente de produção. O trabalho não é apenas produção de riqueza, é organização do tempo, identidade social e pertença. Retirá-lo sem substituir o sentido é abrir caminho à apatia, à violência e à submissão.

Mais subtil, mas não menos grave, é o alerta da captura do imaginário. Quando todas as soluções parecem tecnológicas, deixamos de imaginar soluções políticas, comunitárias ou culturais. A desigualdade passa a ser vista como um problema de otimização, a solidão como uma falha de interface e a Educação como um serviço automatizável. Assim, problemas humanos profundos são tratados como bugs e não como consequências de escolhas coletivas.

“Não há alternativa”, dizem-nos, contudo a História humana é precisamente a história de alternativas. Por isso, é preciso também alertar que nada do que hoje existe era inevitável, nem o Estado Social, nem os direitos laborais, nem a Educação pública, nem a própria democracia. Foram conquistas e não produtos. O futuro que nos é vendido não é o único possível, é apenas o mais lucrativo para quem o promove.

O verdadeiro risco é o humano aceitar tornar-se uma máquina previsível, eficiente, obediente e silenciosa. O futuro exige tecnologia, mas exige sobretudo limites, escolha e consciência. Sem isso, não teremos um amanhã dominado por Inteligências Artificiais, teremos um amanhã habitado por humanos que desistiram de o ser.

O último alerta é de que o futuro não se perde de repente, perde-se por abdicação gradual. Ainda estamos a tempo de escolher. No entanto, escolher implica resistir à facilidade, desconfiar do inevitável e lembrar que nenhuma inovação vale o preço da nossa própria humanidade.

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