Com as minorias se faz uma maioria

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

Publicado a: 

Abdul El-Sayed, do Michigan, primeiro senador muçulmano; Keisha Lance Bottoms, primeira governadora negra na Geórgia e nos Estados Unidos, como um todo; David Crowley, primeiro governador negro no Wisconsin; Aaron Ford, primeiro governador negro do Nevada; Byron Donalds, primeiro governador negro da Flórida; Xavier Becerra, primeiro governador latino eleito na Califórnia; Deb Haaland, primeira governadora indígena no Novo México e em todo o país; Peggy Flanagan, do Minnesota, primeira mulher indígena eleita para o Senado; Gina Hinojosa, primeira governadora hispânica do Texas.

Estas eleições intercalares, para o Congresso e para governador de vários estados, trouxeram esta série de novidades, além, claro, da vitória claríssima do Partido Democrata. Os candidatos republicanos sofreram o impacto da impopularidade do presidente Donald Trump.

Dos nomes referidos acima, só um pertence ao Partido Republicano, Donalds, o novo governador da Flórida, que é também o primeiro republicano negro eleito governador na história dos Estados Unidos. Os outros são todos democratas.

Não se trata de uma coincidência. O Partido Democrata tem sido o partido das minorias, tanto em termos de candidatos, como de eleitores. Barack Obama, o único presidente negro, é um democrata, Kamala Harris, a única pessoa negra a ser vice-presidente, igualmente. E o voto das minorias étnicas foi, nesta terça-feira, um dos fatores explicativos da derrota republicana.

Claro, um fator explicativo que tem de ser equacionado juntamente com a desilusão com o estado da economia, algo atribuído ao presidente Trump, não só incapaz de travar a alta do custo de vida, como piorando a tendência, graças a uma guerra com o Irão que provocou o aumento do preço dos combustíveis.

Grande parte dos americanos repudiou a gestão de Trump, mas o repúdio entre as minorias tem implicações no futuro do Partido Republicano. Foi graças a Trump, quando este transmitia a ideia de que sabia fazer as coisas e resolver os problemas, que os candidatos republicanos tiveram nas anteriores eleições bons resultados, contando com mais votos das minorias do que era tradicional.

"Não se trata de uma coincidência. O Partido Democrata tem sido o partido das minorias (...). E o voto das minorias étnicas foi, nesta terça-feira, um dos fatores explicativos da derrota republicana."
"Não se trata de uma coincidência. O Partido Democrata tem sido o partido das minorias (...). E o voto das minorias étnicas foi, nesta terça-feira, um dos fatores explicativos da derrota republicana." FOTO: Olga Fedorova / EPA

Para simplificar: os chamados americanos brancos (não-hispânicos) serão hoje pouco menos de 60%. Os hispânicos ou latinos, que podem ser de qualquer raça, são quase 20%. Os negros, ou afro-americanos, uns 12 ou 13%. Os americanos de origem asiática uns 6%. Tudo percentagens aproximadas, mas que dão uma noção de como a diversidade é cada vez mais a regra no país, antes identificado como sendo essencialmente WASP, sigla para brancos, anglo-saxónicos e protestantes. Todas as minorias acima referidas têm um padrão de voto preferencial nos democratas. No caso dos negros, elevadíssimo, por vezes acima dos 90% em eleições presidenciais.

Ora, Trump, pela sua personalidade, atenuou esse voto preferencial, e na sua conquista da Casa Branca atraiu mais votos negros, hispânicos e asiáticos do que era habitual em republicanos. Muitos outros candidatos republicanos ganharam com isso também. E parecia, de repente, que a evolução demográfica dos Estados Unidos deixava de favorecer os democratas.

Recordo que até à vitória de Trump em 2024, em apenas uma das anteriores oito presidenciais um candidato republicano tinha tido mais votos populares do que o adversário democrata (George W. Bush em 2004, contra John Kerry). O próprio Trump, na sua vitória de 2016, obteve menos votos populares do que Hillary Clinton.

Ora, a evolução demográfica prossegue apesar das restrições à imigração e, se os republicanos têm de pensar numa resposta imediata para reagir ao mau momento do partido, terão de encontrar uma estratégia de médio prazo que lhes traga apoios nas minorias. Um apoio que já não virá como um bónus da associação com Trump, como até agora.

Todas as análises dos resultados já feitas mostram que os jovens se mobilizaram pelos democratas. E isso contou muito para a maioria esperada na Câmara dos Representantes e para a maioria surpreendente no Senado. Também ajudou na eleição de vários governadores. Mas a deserção do voto das minorias é aquela que mais vai obrigar o Partido Republicano a refletir.

Nesta matéria, não basta ao partido afastar-se da influência de Trump. Isso até pode ser o mais fácil. Para as próximas eleições, em 2028, quando se renovar a Câmara e parcialmente o Senado, e se escolher um novo presidente, os republicanos só serão competitivos se encontrarem uma fórmula (económica e social) para responder a sério a uma América que não é o tão falado cadinho de culturas, mas sim cada vez mais um mosaico cultural.