Dois polícias apresentam-se à rececionista de um hotel com um mandado de prisão contra um dos hóspedes, noticia um jornal local da TV Globo, no interior de São Paulo. Esse hóspede, que saiu algemado, conforme se vê na gravação de uma camareira, era acusado de extorquir dinheiro de inocentes incautos em golpes de internet.Todos os dias os brasileiros são alvo de golpistas de internet, como aquele hóspede preso pela dupla de polícias, mas o que mais impressiona é a criatividade colocada em cada um dos golpes.Em 2025, milhões de brasileiros receberam SMS a dizer que tinham cobranças de portagens em atraso, de valores mínimos, tipo seis reais (um euro), 12 reais (dois euros), mas que tinham de ser pagas sob risco de multas mais altas e bloqueio do veículo numa próxima portagem. Daqueles milhões de brasileiros contactados, muitos milhares pagaram, numa página de internet aparentemente igual à da concessionária das estradas, deixando os dados dos cartões à disposição dos criminosos.Noutra fraude, uma central telefónica de banco, muito prestável, liga a dizer que foi detetada uma compra suspeita com o cartão de crédito do enganado, passa uma musiquinha de espera enquanto a chamada é transferida para o setor antifraude, onde um simpático operador acaba por convencer os ingénuos a comprarem um produto – falso, claro – para se precaverem de futuras compras suspeitas. Num golpe parecido, bancos de mentira dizem detetar um hacker nas contas dos clientes e acabam por convencê-los a instalar aplicações de segurança, a testá-las e, no meio desse processo, a cederem o controlo do telemóvel aos criminosos.Advogados falsos acompanham pela internet processos públicos, contactam os requerentes da ação, a dizer que eles ganharam a indemnização desejada no caso, mas que precisam de pagar uma taxa judicial que, obviamente, é fictícia e fraudulenta.Fotos criadas por Inteligência Artificial criam namorados que mantêm conversas apaixonadas por meses. Depois de ganhar a confiança das vítimas, os namorados que nunca sequer existiram, pedem ajuda para uma emergência num hospital, num aeroporto, numa alfândega…O Mundial de Futebol serviu para a criação de milhares de páginas a vender viagens, bilhetes, camisolas, promoções e transmissões de televisão por streaming todos falsos.E, nesse mesmo período da Copa, as festas juninas e julianas Brasil afora, versão tropical dos santos populares portugueses que incluem inofensivos bingos, registaram centenas de cartões fraudados, graças a máquinas de impressão usadas dissimuladamente pelos criminosos à hora a que os números eram cantados.Esse, aliás, é um sinal de que nem só online se cometem fraudes, há algumas ainda analógicas, elaboradas no velho sistema corpo a corpo.Como aquela tal prisão daquele tal hóspede daquele tal hotel: afinal, os agentes da polícia eram falsos como Judas, assim como o mandado de prisão com que enganaram a rececionista e a camareira, e acabaram presos, acusados de sequestro, por agentes da polícia verdadeiros.