Nos últimos dias, vários artistas portugueses anunciaram que abandonam o MEO Commedia a La Carte Fest, marcado para 29 de Outubro a 1 de Novembro, por discordarem das posições públicas de Jerry Seinfeld, cabeça de cartaz, sobre Israel e a guerra em Gaza. Alguns explicitaram a razão; outros limitaram-se a anunciar a retirada. O festival, que tinha sido apresentado publicamente em Abril já com vários desses nomes no cartaz, ficou assim no centro de uma polémica política que ultrapassou largamente o âmbito da comédia.
Há uma discussão legítima sobre Gaza, Israel e o papel dos artistas perante uma tragédia humana. O que merece discussão é a coerência entre o princípio invocado e a forma como é aplicado. Um artista tem o direito de recusar participar num espectáculo por razões de consciência. Mas, se já aceitou o convite, há também uma responsabilidade perante quem organizou, trabalhou e investiu no evento. E, sobretudo, quando as posições de Seinfeld eram públicas muito antes destas desistências, é legítimo perguntar: se eram incompatíveis com a participação, por que razão o compromisso foi assumido em primeiro lugar?
Existe ainda uma consequência menos discutida. Um festival não é apenas um palco: envolve produtores, técnicos, trabalhadores, fornecedores e dezenas de profissionais cujo rendimento depende daqueles espectáculos. Para quem tem visibilidade pública, uma retirada pode transformar-se num manifesto. Para quem trabalha nos bastidores, pode simplesmente significar trabalho perdido.
E há uma dimensão que não consigo deixar de considerar: o benefício de comunicação que uma desistência destas produz. Um artista que já estava no cartaz pode transformar a sua saída numa declaração pública, obtendo uma enorme exposição mediática e o reconhecimento moral associado a uma causa: uma espécie de campanha de marketing político e moral sem custos, precisamente porque o compromisso inicial lhe proporcionou o palco e a visibilidade.
Não afirmo que essa tenha sido a intenção de ninguém. Mas é legítimo perguntar se o resultado não é esse. E onde fica então a coerência?
Se uma declaração a apoiar Israel é suficiente para justificar um boicote, será preciso aplicar o critério de forma consistente. O Waze nasceu em Israel e foi comprado pela Google; a Intel mantém uma presença tecnológica muito significativa no país e adquiriu a israelita Mobileye; a Apple também adquiriu empresas israelitas. E a própria empresa que detém a MultiÓpticas possui subsidiárias em Israel. É evidente que ninguém é obrigado a abandonar o Waze, a Apple, a Google ou as tecnologias que utiliza diariamente.
É precisamente esse o ponto: se aceitamos que a economia global estabelece relações impossíveis de eliminar, então transformar apenas um festival num teste de pureza moral pode ser menos um boicote coerente do que activismo selectivo. As causas sérias merecem convicções sérias. Mas também merecem coerência. E os compromissos profissionais merecem ser honrados.
Porque fica uma última pergunta, talvez incómoda: na próxima vez que uma empresa ou um produtor quiser contratar quem abandona um compromisso assumido, não irá pensar duas vezes? Não porque discorde das suas convicções, mas porque poderá legitimamente perguntar-se se aquela palavra continuará a valer quando surgir uma oportunidade mais conveniente e rentável de fazer uma declaração pública.
A liberdade de mudar de opinião é inquestionável. A confiança profissional, porém, constrói-se precisamente pela capacidade de cumprir a palavra dada.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico