Charneca da Caparica: um bairro que ainda sabe ser bairro

Rute Agulhas

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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Há bairros onde as pessoas vivem lado a lado. E há bairros onde as pessoas vivem umas com as outras. O meu, na Charneca da Caparica, é assim. Aqui, a palavra vizinhança é uma prática diária. É saber quem vive ao nosso lado, conhecer os nomes das pessoas, dos cães e dos gatos. É reconhecer o outro como parte do nosso mundo.

Temos também o padeiro, que percorre a rua todas as manhãs com pão quente e bolos ainda a cheirar a madrugada. Ele não traz apenas pão: traz rotina, conversa, vida. Em muitos sítios, esta figura desapareceu; no meu bairro, continua a ser uma constante.

A rua transforma-se ao longo do ano. No Halloween, as casas enchem-se de teias, abóboras e fantasmas improvisados. No Natal, multiplicam-se as luzes, as coroas nas portas e as árvores que brilham pelas janelas. No magusto, o cheiro a castanhas assadas espalha-se pela rua inteira. E no verão, o arraial no final da rua junta mesas, música, sardinhas e gargalhadas até tarde. Agora, já se pensa em ver o Mundial em conjunto: quem traz o projetor, quem empresta a parede branca, quem faz as bifanas. Aqui, os grandes momentos não se vivem sozinhos.

Quando a minha gata recém-chegada ao bairro desapareceu, todos se mobilizaram. E a gata apareceu, claro. Num bairro assim, ninguém se perde sozinho.

Também já tive quem me salvasse de uma osga que decidiu instalar-se em minha casa. Bastou abrir a porta e chamar o vizinho. Ele veio, tirou a osga, riu-se e seguimos com a vida.

Pequenas coisas? Talvez. Mas são estas pequenas coisas que constroem uma verdadeira rede de suporte – aquela que não se compra, não se legisla e não se improvisa.

Falamos muito de saúde mental, de solidão, de burnout. Falamos pouco daquilo que, silenciosamente, nos protege de tudo isso: a comunidade. A que bate à porta quando vê a luz acesa até tarde. A que pergunta se está tudo bem. A que celebra festas na rua, que se junta para ver o jogo, que se mobiliza quando alguém precisa.

A vizinhança – a boa vizinhança – é um fator de proteção. É pertença, é segurança emocional, é humanidade em estado puro. No meu bairro, isso vive-se com uma naturalidade que quase parece um luxo.

Num país onde tantas vezes nos queixamos da falta de tempo, da falta de apoio, da falta de tudo, talvez devêssemos perguntar: o que perdemos quando deixamos de conhecer quem vive ao nosso lado?

No meu bairro, a resposta é simples: perdemos tudo o que nos faz comunidade.

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