Um venerável estadista europeu entrou na semana passada no debate sobre os centros de dados, alertando para um fim “catastrófico’’ e uma ameaça à “soberanidade’’ da Europa se o continente não construir a sua própria infraestrutura para controlar o armazenamento dos seus dados do setor público.
Mario Draghi, antigo presidente do Banco Central Europeu, escreveu no Financial Times que depender de sistemas informáticos dos EUA acarreta riscos, numa altura em que as alianças entre países nem sempre podem ser consideradas fiáveis.
Uma sondagem da Gallup mostrou que 7 em cada 10 americanos se opõem aos centros de dados, devido a preocupações com os custos da energia, o consumo de água, a poluição ambiental e sonora e os riscos para a saúde.
Draghi argumenta que os centros de dados europeus estão a ajudar os “gigantes tecnológicos americanos’’ e defende que a Europa deve controlar os seus registos de saúde e outros dados do setor público.
A Microsoft é o utilizador final dos chips Nvidia instalados no Sines Data Centre Campus, em Portugal. Apoiado por uma empresa de investimento norte-americana e operado pelo Start Campus desde 2024, é um dos maiores projetos de centros de dados da Europa.
Quando estiver concluído, em 2030, o projeto de 8,5 mil milhões de euros terá seis edifícios e até 1,2 gigawatts de capacidade total de TI, potencialmente equivalente a 22% do consumo de eletricidade fornecida pela rede em Portugal em 2025. O campus ocupa 80 hectares, cerca de três vezes a dimensão do Parque Eduardo VII, em Lisboa.
O projeto reciclará diariamente 1,4 milhões de metros cúbicos de água do mar para arrefecimento, com potenciais consequências para o ambiente marinho.
Filipe Mota da Silva, responsável pelo AI Energy Studio da Globant, considera que os elevados preços da eletricidade continuam a ser um desafio. Os compradores europeus têm tradicionalmente recorrido a pequenos contratos de curto prazo, dificultando o financiamento de nova capacidade. Ainda assim, diz que o projeto de Sines “está a fazer as coisas certas’’ ao combinar água do mar com acesso a eletricidade de fontes renováveis.
“A proposta de Draghi não é a exclusão, mas garantir que as cargas de trabalho sensíveis funcionem sob controlo europeu. Por isso, a minha expectativa é que o aumento dos protestos e das preocupações com a soberania conduza a mais centros de dados de propriedade europeia, concentrados nos mercados com energia mais barata e mais limpa, operados em parceria com empresas americanas quando necessário’’, acrescentou.
Acacio Pires, consultor sénior de políticas da Zero, Associação Sistema Terrestre Sustentável, afirma que “os recursos renováveis de Portugal podem constituir uma vantagem competitiva, mas a eletricidade renovável também é necessária para descarbonizar os transportes, os edifícios e a indústria. Um centro de dados deve, por isso, acrescentar recursos ao sistema energético, em vez de simplesmente competir pela eletricidade renovável de que Portugal já necessita para a sua transição climática.’’
“A questão não deve ser saber se a Europa precisa de centros de dados. É evidente que precisa de capacidade computacional. A questão é: quais os centros de dados, para que fins, em que locais, utilizando que recursos e produzindo que valor público e estratégico?’’ acrescentou Pires.
Para Pires, a questão deve ser integrada na Estratégia Industrial Verde e no debate parlamentar sobre a Lei-Quadro Portuguesa do Clima, numa discussão mais ampla sobre o tipo de desenvolvimento industrial, energético e tecnológico que Portugal pretende.
Draghi defende ainda ‘’tributação progressiva’’ para garantir benefícios públicos.
‘’Desta forma, a Europa não tem de escolher entre crescimento, soberania e os seus valores. Pode ter IA sem oligarcas.’’