Comemoramos, em 2026, os 40 anos da adesão de Portugal à CEE. Lembramos também as quatro décadas do Acordo de Schengen, que transformou por completo a maneira como vivemos no espaço comunitário. Desde a formalização da entrada de Portugal na CEE pela mão do primeiro-ministro Mário Soares, a 12 de junho de 1985, e a entrada como membro de pleno direito a 1 de janeiro seguinte, até aos nossos dias, muitas foram as transformações em Portugal resultado da adesão, que coincidiu com avanços substantivos no processo de integração europeia. A adesão de Portugal à CEE pode ser entendida como uma política pública, provavelmente a mais importante desde a Revolução de 25 de Abril de 1974. O país mudou significativamente após 1986, a tal ponto que, lembrava anos depois Medeiros Ferreira, ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo Constitucional, se poderia periodizar o país antes e o país depois da entrada na CEE, hoje União Europeia (UE).Desde 1 de janeiro de 1986, Portugal recebeu um acumulado de fundos europeus superior a 157 mil milhões de euros, excluindo os apoios financeiros pré-adesão, por quatro vezes o país presidiu ao Conselho da União Europeia (1992, 2000, 2007 e 2021) e, neste ínterim, algumas personalidades portuguesas têm ocupado posições de relevo nas estruturas e instituições europeias.O caminho percorrido por Portugal na aproximação e depois pertença ao clube europeu — que, aliás, começara no estertor do Estado Novo, com o Acordo Comercial entre Portugal e a CEE de 1973 —, não é imaculado, no sentido em que os resultados económicos, como membro da Zona Euro, não são extraordinários, a convergência económica com os demais países comunitários é lenta e Portugal continua a debater-se com desigualdades e sérias assimetrias.Porém, uma rápida consulta de alguns indicadores fundamentais mostra como desde 1976 a mudança foi real nos planos económico, social, educativo, cultural e até político, dado que vinculou o país no fortalecimento da democracia e busca do desenvolvimento, uma vez perdido o império. Simultaneamente, a pertença e compromisso com a UE apresenta-se inquestionável pelos partidos do chamado arco da governação.Se a opção europeia se apresentava em 1976 como a alternativa política mais consentânea para um país que se moderara e visava o progresso, cumpre-nos avaliar esse legado passadas várias décadas, reconhecendo no horizonte algumas nuvens negras, dada a conjunta europeia e internacional. Se o foco é Portugal, é impossível ignorar a incerteza que paira no ar: a guerra na Ucrânia e o seu desfecho adiado sine die, que nos lembra que a UE deve, de uma vez por todas, afirmar-se como um ator político de primeira linha, com o corolário militar, um mercado único mais sólido e robusto se não quiser ficar mais atrás dos EUA e da China, a redução da burocracia, além da necessidade derradeira de rever os tratados e concluir os alargamentos em curso.Não olvidamos que quer no plano doméstico, quer europeu, estas reformas têm de ser transparentes e inteligíveis para os cidadãos europeus. O sentimento eurocético é expressivo e crescem eleitoralmente os partidos antissistema para quem a UE é um labirinto e uma organização afastada dos “verdadeiros” interesses nacionais. Cremos ser fundamental olhar para o projeto europeu com Portugal num espírito de cooperação. Os longos oito anos de negociações com vista à adesão são a prova da continuidade do espírito vivo dos pais fundadores, que teve em Jacques Delors um discípulo, e para quem finalmente em 1985 a Europa se estenderia até ao Cabo da Roca, farol de esperança.