Para ler a poesia portuguesa há muito quem pergunte: “Por onde começar?” Logo teremos algumas respostas prontas, como se uma fórmula-feita nos fosse possível apresentar a quem, ingénua, ou desconfiadamente, ouse questionar-nos sobre que caminho será o melhor para entrar em tão densa floresta de símbolos.
Poderemos, para um leitor juvenil indicar o nunca ultrapassado livro de Sophia de Mello Breyner, O Meu Primeiro Livro de Poesia (Caminho), mas também podemos lembrar um livro que há uns bons anos a Dom Quixote publicou, de Antero de Quental, o Tesouro Poético da Infância, uma compilação de rimas que, talvez para os alunos do 1º ciclo e mesmo do 2º ciclo, faça todo o sentido ler-se.
E haverá, decerto, antologias extremamente importantes para esses leitores mais competentes (e exigentes) que sabem traçar a diacronia da nossa poesia dos séculos XIX e XX, os dois séculos em que – a par do XVI – se operaram mudanças radicais no que respeita à linguagem poética, as suas inovações, as rupturas mais significativas, os saltos (por assim dizer) mais importantes e que a fizeram avançar no sentido em que a própria modernidade avançou: aquele sentido que vai de 1857 e de As Flores do Mal, ou de Leautremont e do seu Cantos de Maldoror (1879), passando por Rimbaud e por Mallarmé (na literatura de língua inglesa por Poe até Ezra Pound, com Blake pelo meio até chegarmos a Joyce e Eliot) e em cujo trilho percebemos bem que os caminhos da poesia moderna chegaram a esse “lago escuro silente de juncais” de que falou Pessanha e que é, no fundo, esse lago do sentido da linguagem e do homem que, separado de Deus, observando a sua morte, igualmente sabe, como Hoffmansthal, que não só as palavras não dizem já o real, como o real pede que o sujeito que o diz se cale, que a sua elocução desapareça.
Casais Monteiro, entre nós, além de Pessoa e de Jorge de Sena, foi dos que melhor compreendeu a fissura aberta pela modernidade estética: o desencontro do homem com a palavra e, subsequentemente, a liberdade total dessa mesma palavra para refundar um mundo que lhe é alheio, eis o que prepondera na nossa própria historicidade poética. Nos maiores poetas destes últimos 150 anos é mesmo esse, creio, o imo da grande criação.
Vem tudo isto a propósito de um livro com organização e notas de Manuel Alberto Valente que, em Março, chegou às livrarias. De entre as antologias que podem levar o leitor exigente a entrar na nossa poesia, esta será, a meu ver, das mais claras, ao mesmo tempo que das mais representativas do que foram exactamente esses saltos, avanços e rupturas operados na nossa modernidade poética.
Mais do que uma homenagem à colecção fundada por Snu Abecassis, fundadora da Dom Quixote em 1965, esta antologia oferece-nos uma grande angular também sobre a lógica das edições num tempo em que publicar-se poesia significava resistir contra o emparedamento ideológico. Foi na colecção dos Cadernos de Poesia Dom Quixote (a não confundir com a iniciativa editorial homónima) que um tempo poético português teve lugar.
Eram pequenos livros de sóbria e harmoniosa feitura; com lettering sempre igual, rosto do autor na capa, com fundo monocromático para melhor salientar esse rosto; livros portáveis, para trazer no bolso, livros breves, com tiragens de uns quantos milhares (3000 exemplares logo esgotados, o livro inaugural desta colecção); livros estes que revelaram, e noutros casos consolidaram, poetas de gerações diversas.
Se nos anos de 1960, e nos anos 70, Carlos de Oliveira (1921-1981), com que a colecção teve início (Micropaisagem, 1968), Alexandre O’Neill (1924-1986), David Mourão-Ferreira (1927-1996), reunindo uma breve antologia, Lira de Bolso (1969), Ruy Belo (1933-1978), Natália Correia (1923-1993), António Ramos Rosa (1924-2013), Sophia de Mello Breyner (1919-2004), Herberto Helder (1930-2015), eram já nomes reconhecíveis e centrais na nossa poesia quando publicaram na chancela que Snu fundou e que teve em Fernando Assis Pacheco a mais preciosa e determinante ajuda (e nunca o autor de Cuidar dos Vivos quis publicar-se nesta colecção, porquanto era ele o consultor que Snu não dispensava), acrescente-se que outros poetas maiores do nosso novecentismo aí puderam consolidar as suas obras.
Foi assim com Maria Teresa Horta (1937-2025), com Armando Silva Carvalho (1938-2017), com Gastão Cruz (1941-2022) e com Nuno Júdice (1949-2024), sendo de particular importância o seguinte facto: os livros de todos estes autores vindos a lume na Dom Quixote representam pontos fulcrais nas carreiras em causa: Minha Senhora de Mim (1967), de Maria Teresa Horta, Os Ovos de Oiro (1969), de Armando Silva Carvalho, que tinha sido prémio de revelação APE em 1965, bem como Teoria da Fala (1972), de Gastão Cruz, publicado no mesmo ano em que Nuno Júdice se estreia com A Noção de Poema, são quatro livros axiais para compreendermos hoje, em 2026, de que modo a verbalização de um mundo fechado, com o fascismo no seu estertor e a guerra em pano de fundo, poeticamente se realizou em três poetas de uma geração jovem que aparecia nesses anos 60/70.
A afirmação do corpo feminino, o anseio de um amor plural, sem fronteiras – glosado por vozes poéticas do feminino que contam muito na poesia actual –, isso teve início com Maria Teresa, a qual, de forma decisiva, tem no seu livro de 67 o ponto mais luminoso da sua poesia. O mesmo vale dizer para Armando Silva Carvalho, Gastão Cruz e Nuno Júdice, porquanto esses livros com a marca da Dom Quixote funcionam hoje, ao relermos as suas obras, como eixos de sentido para quanto retrospectivamente (no caso de Gastão, autor já com obra publicada antes de 72) e prospectivamente fizeram de poesia.
A aventura da poesia na Dom Quixote continuou nas décadas seguintes. Se Herberto publicou aí, nos anos 70, o inescapável Vocação Animal (1971), se Ruy Belo faz sair nesta editora o marcante Homen de Palavra[s] de cujo livro Manuel Alberto Valente escolheu “O Portugal Futuro” (1970); se Sophia reúne em Grades (1970) a sua poesia de intervenção (“As pessoas sensíveis”), diga-se que esta colecção primou, como se vê pelo catálogo dessa histórica colecção, por conciliar diversas sendas da contemporaneidade.
Deste modo, à poesia alquímica e vertiginosa de Herberto (“Era uma vez um pintor”), opõe-se a camoniana voz de Manuel Alegre (1937), de que se extraiu um soneto do seu livro Com Que Pena - 20 poemas para Camões (1992); ao micro-rigor de Oliveira (“Estactatite”), podemos opor a expansão erótico-verbal de Ramos Rosa em “Da grande página aberta do teu corpo”, poema de Nos Seus Olhos de Silêncio (1970). Este tipo de jogo de textos (não direi de espelhos, pois importam mais as diferenças de estilo entre os diversos poetas aqui compilados que as semelhanças) pode continuar com aqueles autores que a Dom Quixote veio a albergar nas décadas de 80, de 90 e de 2000.
José Carlos Vasconcelos (1940), Vasco Graça Moura (1943-2014), Alice Vieira (1943), Lídia Jorge (1946), Eduardo Pitta (1949-2023), Ana Luísa Amaral (1956-2022), Luís Filipe Castro Mendes (1950), Luís Miguel Nava (1957-1996), Fernando Luís Sampaio (1960), Fernando Pinto do Amaral (1960), Ana Marques Gastão (1963), eis alguns de outros poetas cujas obras literárias são hoje centrais, não só na poesia.
No caso de Lídia Jorge, por exemplo, que se estreia em 2019 com Livro das Tréguas, o interessante será ver como efeitos de narratividade vindos de Júdice ou de um poeta como Fernando Luís Sampaio (revelação em 1981 com Conspirador Celeste) nela se prolongam ou como, tais efeitos propensos à efabulação em poesia (o poema deixa de cantar para contar), se suspendem, ou subtraem na poesia dum Pedro Tamen (1934-2021), ou se harmonizam com vozes ora mais líricas (José Carlos Barros, Pinto do Amaral), ora mais especulativas, ou merencórias de gerações reveladas depois de 2000, como serão os casos de Pedro Mexia (1972), que na Dom Quixote publicou Menos por Menos (2011), antologia breve, Salvador Santos (1979) ou o autor destas linhas que, entre 2016 e 2022 publicou três colectâneas de inéditos.
De que vale, então este livro organizado por Manuel Alberto Valente, o sobrevivente de um tempo mágico em que publicar poesia era olhar a Esfinge e aceitar o seu desafio? Vale de muito. É, sem outro critério que não o de celebrar a poesia, uma boa estrada que qualquer leitor, afinal, pode percorrer – e isto sem esquecer que nessa colecção poetas estrangeiros igualmente foram publicados: Ungaretti e Neruda, Salvador Espriu e Hans Magnus Enzensberger. Manuel Alberto Valente talvez aceite o repto de compilar também poemas desses autores.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico