Em Março de 2024, passados aproximadamente dois anos e meio do início de funções de Carlos Moedas enquanto Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, escrevi neste mesmo jornal um artigo sobre a total falta de noção, embrulhada em doses consideráveis de vaidade, que caracterizam o ilustre edil. Na altura autoproclamou-se de Carlos, o Fazedor, quando na verdade se limitava a inaugurar obras ainda iniciadas ou mesmo praticamente concluídas no mandato de Fernando Medina. Não passava, portanto, de um Inaugurador.Passados mais de dois anos da publicação do artigo que refiro, não é surpreendente que alguém que governa tendo como prioridade a promoção da sua própria imagem ao invés da resolução dos problemas dos lisboetas, seja passível de receber um número variado de cognomes. Atualmente, o Encenador assenta que nem uma luva em Carlos Moedas. Se não, vejamos: o Tribunal de Contas acaba de confirmar, com a frieza dos números, que o Plano de Saúde Lisboa 65+, a bandeira de Carlos, anunciado com a promessa de “um médico 24 horas por dia, 365 dias por ano” para 130 mil idosos, não passou disso mesmo: de uma encenação. De marketing pago com dinheiro de todos nós.Este plano de saúde surge em 2022, enquanto Moedas colocava na gaveta novos protocolos para mais equipamentos e inaugurava centros de saúde que Fernando Medina deixou praticamente prontos. Ao mesmo tempo que debitava críticas à gestão da Saúde do então governo do PS, vendia o seu ambicioso plano, que não passaria de mais um incrível “unicórnio”.Os factos são demolidores. Aderiram menos de 12% dos idosos. As ambulâncias prometidas fizeram zero transportes em dois anos e meio. E o que devia envergonhar quem governa esta cidade: metade da despesa, perto de 290 mil euros, foi para publicidade e pareceres jurídicos. Gastou-se quase tanto a anunciar o plano como a tratar pessoas. “Atuação redundante e ineficiente”, adjetivou o Tribunal de Contas.Às muitas dúvidas que surgiram desde 2022, respondeu o Encenador com o malabarismo verbal a que habituou a cidade, essa arte de transformar um folheto numa política de saúde. Enganou os seniores. Vendeu-lhes uma promessa que sabia não poder cumprir, e ficou-se pelo brilho do anúncio.Mas a semana reservava ainda uma lição sobre prioridades. No mesmo momento em que o relatório expõe o desperdício do 65+, o executivo decide cortar os descontos nas refeições escolares. Adeus aos 50% para os filhos das famílias cuja única culpa é declararem mil euros de rendimento. Sessenta por cento dos alunos de Lisboa atingidos, em plena escalada dos preços da habitação e do custo de vida. A Câmara explica, sem corar, que “ação social escolar não é ação geral escolar”. Traduzindo: há crianças a menos para serem ajudadas.Milhões em propaganda para idosos que nunca foram tratados; tostões retirados do prato das crianças. Saudemos, então, a clareza: Moedas começou finalmente a governar para os seus. Para os privilegiados, para os que não precisam do desconto. Aos restantes, resta-lhes o folheto, com o rosto de Carlos, o Encenador.