Carlos Mendes de Sousa, um livro fulcral

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"De um conjunto vasto de textos dispersos sobre a poesia portuguesa do século XX, escritos ao longo do tempo, seleccionei leituras de cinco autores cujas obras me ocuparam em momentos distintos.”, assim lemos na frase do breve texto de apresentação deste importante livro sobre a poesia de novecentos, No Caminho da Poesia (Assírio & Alvim). Ensaio e reescrita, o que Mendes de Sousa põe em jogo é a compreensão do poema e da poesia – naquela fulcral distinção de um Michel Deguy – como faces de um signo irradiante: o da linguagem.

Professor, académico de renome, o autor deste livro não esquece, portanto, que ler um poema é “um ver por dentro” e ler a poesia é um retomar, ou um modo de olhar o fenómeno da linguagem que, como um todo, se dá a ver como espécie de poliedro de cristal, espelho dos mundos possíveis que os poetas constroem. Daí que a estruturação do livro obedeça a essa lógica muito curiosa de uma leitura pessoal: na primeira secção o ver por dentro o poema na sua laboração, na segunda secção a aceitação de que o ensaio busca compreender a metapoesia e, na terceira e última parte deste volume, “o olhar sobre cinco nomes analisados, agora sob o ângulo do testemunho.” É nesta perspectiva que este livro marca o ensaísmo sobre a poesia em Portugal: não estamos perante o exercício meramente austero de um académico divorciado da “vida da poesia” (sirvo-me de um título de ensaios de Gastão Cruz, está bem de ver), antes nos acercamos daquela inteligência sensível de um leitor que, sendo ensaísta, foi amigo de poetas, conviveu com eles. Óscar Lopes, talvez um mestre oculto do ensaísta que é Carlos Mendes de Sousa, isso mesmo dizia que era o ensaio: um modo de ler, um modo de nos entendermos. É essa a linha de trabalho que temos de saber, nós também, reconhecer aqui.

Com efeito, se formos à última secção deste No Caminho da Poesia, um testemunho sobre Luís Miguel Nava (1957-1995), poeta-crítico, um dos últimos dessa linhagem que na modernidade tem em Pessoa o seu iniciador, logo o ensaio se compreende como leitura jubilosa e perscrutação da memória. Esse texto dedicado ao autor de O Céu Sob as Entranhas, vem do ano de 2004, prefácio que foi à edição dos Ensaios Reunidos de Nava. Carlos Mendes de Sousa faz do prefácio uma viagem à poesia deste criador literário, o nome central da reinvenção do poema em prosa em língua portuguesa, unindo, ao ler Nava, uma trama de ideias que nos ajudam a compreender melhor o poeta a partir do ensaísta que Luís Miguel eximiamente foi. Trata-se de seguir o pensamento ensaístico de Nava, é certo, mas tendo em conta gestos estruturais que não se dissociam jamais da poesia. “O fragmentarismo, decorrente do facto de estarmos perante uma recolha de ensaios, não obstrui o fio condutor que atravessa o conjunto, contribuindo em grande medida para o seu impacto.” (p.281). Isto é: ao sondar os Ensaios Reunidos de Nava, Carlos Mendes de Sousa chama a atenção para um ideal de arrumação de textos, nos ensaios, que está igualmente presente nos livros de poesia, nomeadamente na edição de Poemas, de 1987. Há, assim, o cuidado por compreender uma questão complexa quando falamos do binómio autor-obra: a intencionalidade. Também Mendes de Sousa, lendo Nava, identifica “uma clara intencionalidade na divisão ternária” dos ensaios do poeta-crítico: pensar a crição poética em três autores estrangeiros, seguindo-se uma secção central onde o corpus poético nacional ganha peso. Fechando o livro de Luís Miguel Nava, um texto sobre a arte de Francis Bacon – naquilo que é um signo-sinal fortíssimo no modo como Nava, o crítico, lendo um artista plástico axial da contemporaneidade, fornece pistas ao leitor que, depois, queira entrar no mundo convulsivo e carnal da sua poesia.

Carlos Mendes de Sousa, diga-se, em todos os ensaios deste seu livro, tem igualmente delineado o caminho a seguir: é sempre, esse caminho, o de uma ética da leitura (como dela fala Hillis Miller), uma pedagogia do ler. Ainda sobre Nava, tal pedagogia concita o gesto da harmonia entre textos: Mendes de Sousa lê Nava leitor de Fiama (o melhor ensaio sobre Área Branca é, sem dúvida o do poeta de Decalcomania), esclarecendo: “Para o crítico, que é sobretudo poeta, o acto de subscrever o livro [de Fiama] pressupõe uma apropriação, um desejo que, no mais íntimo, é o de ser autor do livro. Por isso, o que pretende da crítica [Luís Miguel Nava] é simplesmente iluminar o texto com a luz que dele própria ela [a crítica] consiga extrair e concentrar” (p.283). Esse desejo de iluminação em Nava, que leu e escreveu sobre Rimbaud, o das Iluminações, é o mesmo tipo de desejo que ilumina os textos de Carlos Mendes de Sousa.

De facto, se ponderamos o que sobre Eduardo Lourenço se escreve em O Habitante da Aventura Poética, ensaio originalmente publicado no volume III das Obras Completas do ensaísta de O Labirinto da Saudade, é sob a óptica do desejo de ler um ensaísta que foi, ele próprio, tocado pela Esfinge e o seu mistério, que o movimento da leitura se insinua. Uma página absolutamente magistral como um ensaísta lê um mestre do ensaísmo é talvez esta: ao pensar sobre as relações entre tempo e poesia, eis: “Em cada linha [dos seus ensaios] vemos [Eduardo Lourenço] profundamente ligado ao tempo em que vive. Mesmo os ensaios sobre poesia, que parecem obedecer à assunção de uma perspectiva não-histórica, nunca implicam uma anulação da temporalidade. A inquietude e os dilaceramentos do devir histórico e cultural, bem como o desejo voraz de acompanhá-lo em múltiplas direcções, repercutem nas suas páginas.” (p.215). Não é de somenos esta visão de Carlos Mendes de Sousa sobre Lourenço, posto que, à luz dessa teoria do ensaio como um falar sobre um outro que é um falar de si – e isso preside ao pensamento profundo do grande leitor que foi Eduardo Lourenço – o ensaio se nos abra como criação literária, isto é, texto que, como o da poesia, é no seu fazer um artefacto de cultura e, por isso, um diálogo entre actores de uma historicidade, o que, na verdade, justifica que Eduardo Lourenço, olhando para os poetas, se tenha sempre pertencido como parte natural dessa família.

No Caminho da Poesia abre com um estudo profundo sobre Sophia. O que importa ao ensaísta nesse primeiro grande lance hermenêutico? Não só apresentar a poética de Sophia à luz de temas e motivos reconhecíveis e não só à luz de uma concepção de poesia que tem as suas raízes em Holderlin, ou em clássicos gregos, na visão de Cesário, ou no geometrismo de uma claridade que vem da palavra-imagem que ela cultivou como ninguém. O que, no fundo, Carlos Mendes de Sousa nos dá a ver nesse magnífico momento de partilha e de amor à poesia de Sophia é bem outra coisa: que ser-se ensaísta e leitor do real pela mão do poema é ainda acreditar que se pode viver poeticamente sobre a terra. A promessa destes ensaios não é, pois, outra. Escrever como quem ama e não como quem escreve – disse-o Raúl Leal.

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