'Burquínis' e biquínis: a opressão do corpo da mulher

Ana Rita Gil

Professora da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Investigadora do Lisbon Public Law

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Este texto é sobre opressões, em graus diferentes, do corpo da mulher. Não vou pôr em pé de igualdade os casos, apenas sublinhar que, também entre nós, esse corpo é sujeito a uma carrada de normas impostas pela sociedade.

Há um cartoon em que uma mulher de hijab e uma de biquíni se cruzam na praia: ambas acham a outra objeto de uma sociedade dominada pelo homem. Pode ser redutor, mas mostra isto: julgamos sempre a partir da nossa visão do mundo, sem saber a história do outro lado.

A burka, no sentido talibã, é uma imposição inaceitável, que invadiu um país precisamente para oprimir as mulheres, por isso fica de fora. Mas o mesmo pode não valer para o burquíni, o hijab ou outros trajes de outras culturas. Ao falar com mulheres do Médio Oriente, percebi haver quem se sinta mais livre a esconder o corpo, quem veja nisso modéstia, e quem sofreu imposição familiar, só podendo sair de casa coberta. Não podemos generalizar: pura e simplesmente não sabemos. Talvez a muçulmana que me vê de fato de banho pense que também eu “não tive escolha” nesse traje.

Olhemos para o outro lado da moeda. Será assim tão libertadora a norma de andarmos todos desnudos na praia? Também entre nós, muitas mulheres (que sofrem infinitamente mais a pressão estética), não são felizes no desfile obrigatório do corpo. Algumas sofrem com o verão, já que ir à praia implica expor algo com que não se sentem confortáveis.

Muitos homens dirão que não somos “obrigadas” a andar assim. Ora, tal como a sociedade de lá espera a modéstia e o encobrimento, a sociedade de cá espera que me dispa para estar ao sol.

A isso soma-se a pressão do “Corpo de Sonho” das revistas: magro, curvilíneo, de pele lisa - impossível para 90% das mulheres reais. Resta lutar todos os dias por essa quimera, como se já não bastasse lutar que nem loucas pela carreira, pela casa, pelos filhos, pelos pais idosos, pelo cansaço crónico. No final, ainda temos de ser “fit”. E se não formos, lá vem o amigo do ginásio dizer o que fazemos de mal, num “tens de fazer isto e não podes fazer aquilo”.

A sério? Isto é ridículo e ninguém questiona. É que poucas vezes está em causa apenas a saúde, como se apregoa. Em bom rigor fazemos isto para alcançar um ideal imposto como o único certo, que nos esmaga numa meta inalcançável. Que “emancipação” é esta? E frustrante: é uma luta inglória contra a própria genética.

Repito: as escalas não se comparam. Mas olhemos para as nossas modalidades de opressão antes de proclamar ao mundo que o biquíni é que é libertador.

Só no dia em que se aceitem todos os corpos, sem exigir um molde único, nem culpabilizar quem dele se desvia, e em que as mulheres possam vestir-se como quiserem (biquíni, fato de banho, vestido longo, burquíni…) sem que isso levante uma série de questionamentos, é que poderemos dizer que, à nossa escala, não há opressão alguma sobre o corpo da mulher no Ocidente.

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