Briga de cachorro grande

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No Brasil, ouve-se uma frase curiosa desde 2002: “Perdemos a Copa outra vez”. E é curiosa porque em princípio nós, seres humanos, só perdemos aquilo que temos: as chaves de casa, o telemóvel, a cabeça, a vida... Logo, ao dizê-la, os brasileiros sentem que a Copa, por defeito, é deles. Se não a ganham, é porque a perderam.

Para quem vem de fora - de um país que nunca a venceu – pode soar a arrogância. Mas é lógica: o Brasil tem tudo, muito de tudo, para ganhar Mundiais de Futebol e, por isso, apesar da longa crise atual, ganhou mais do que a concorrência.

Porque se o futebol é o mais romântico dos desportos – um baixinho de 1,70 pode levar a Argentina às costas e um filho de marroquino e guineense de um subúrbio problemático pode ser um herói em Espanha –, o Mundial é talvez a menos romântica das suas competições.

Se retirarmos da equação o excecional Uruguai, bicampeão na pré-história da prova, sobra um grupo muito exclusivo de vencedores: além do Brasil, a Alemanha, a Itália, a Argentina, a França, a Inglaterra e a campeã Espanha. Sete países. Sempre os mesmos. Ao longo de quase um século. O que têm em comum? Chamemos-lhes os três “P”: população, PIB absoluto e paixão.

Vejamos, como exemplo, o citado Brasil. Com mais de 200 milhões de habitantes, tem uma gigantesca base de recrutamento; o PIB brasileiro, não necessariamente o per capita, mas o absoluto, está no top-10 mundial; finalmente, o povo tem paixão assolapada por futebol e pela seleção nacional.

Alemanha, Itália, Argentina, França, Inglaterra e Espanha estão todos, uns acima, outros abaixo, no top-40 das tabelas de população e de PIB absoluto, e são, como o gigante sul-americano, apaixonados pelo jogo – a paixão que falta a alguns dos mais populosos e mais ricos países do mundo, como os EUA, que ainda divide atenções entre NFL, NBA, MLB, NHL e desportos individuais, a Índia, louca por críquete, e a China e a Rússia, com mais vocação e interesse olímpico, apesar de a segunda, hoje suspensa, ter boa tradição futebolística.

Portugal? Ao contrário de americanos, indianos ou chineses, não lhe falta o “P“ de “paixão” e vem fazendo bem o trabalho de casa, formando gerações de craques, investindo em conhecimento técnico e infraestrutura material, mas parte sempre, como também Países Baixos, Bélgica, Croácia e companhia, em desvantagem estrutural nos outros dois “P” face aos cachorros grandes citados.

Por mais que custe ouvir, um brilharete num Mundial, tipo chegar às meias-finais ou final, ou uma conquista em provas de âmbito europeu parecem ser o teto.

Pelo contrário, países como México, Colômbia, Turquia e Nigéria têm os tais raros três “P”, de população, de PIB absoluto e de paixão. Se fizerem um inteligente, exigente e persistente trabalho de casa podem estar na calha para ganhar a primeira Copa e integrar a matilha de cachorros grandes num futuro mais próximo ou mais distante.

Mas só numa edição em que Alemanha, Itália, Argentina, França, Inglaterra e Espanha não a ganhem. E o Brasil não a perca.

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