Brasil conspurcado

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O Mensalão, primeiro grande escândalo a conspurcar a democracia brasileira do século XXI, rebentou em 2005.

No entanto, o esquema de pagamento de uma mesada a parlamentares em troca de votos a favor de projetos do executivo do PT, de centro-esquerda, não teve influência nas eleições do ano seguinte.

O presidente Lula da Silva, aproveitando o bem-estar económico do primeiro mandato, venceu o rival Geraldo Alckmin, do PSDB, de centro-direita, com mais de 20 pontos de vantagem e provou que a máxima “é a economia, estúpido” estava em forma.

O Petrolão, escândalo investigado na Operação Lava-Jato de pagamento de subornos a centenas de políticos por parte de um grupo de construtoras visando ganhar concursos públicos, foi o segundo grande escândalo a conspurcar a República desde a redemocratização.

Estourou em 2014, mas teve epicentro nos anos seguintes. E, ao contrário do Mensalão, por surgir em época de vacas magras económicas foi a tempo de gerar uma revolução na política local que se refletiu num impeachment, a troca de Dilma Rousseff por Michel Temer, em perdas fortes a curto prazo do PT e no quase desaparecimento a longo prazo do PSDB, para dar lugar ao bolsonarismo, a versão brasileira do fenómeno global de ascensão da extrema-direita.

Quanto vale então um escândalo em moeda eleitoral? Uma fortuna, como o Petrolão, ou uma ninharia, como o Mensalão?

Não se sabe. E é por isso que o Brasil – ou o círculo do poder em Brasília – está tão nervoso com o terceiro grande escândalo a conspurcar os Três Poderes, o do Banco Master, que explodiu no ano passado mas teve desenvolvimentos extraordinários na última semana, isto é, em plena campanha e a menos de um mês do sufrágio.

Como os outros, ocorre durante um governo do PT, logo atinge Lula, no mínimo de raspão, mas fere o candidato rival Flávio Bolsonaro, apanhado em gravações a pedir milhões a Daniel Vorcaro, o banqueiro corrupto entretanto detido que é protagonista do escândalo, num órgão vital.

Pelo meio coloca em cheque Alexandre de Moraes, o juiz do Supremo que se tornou o ódio de estimação da extrema-direita por força da condução implacável do processo de condenação de Jair Bolsonaro e, por consequência, o xodó da esquerda, sob a alcunha carinhosa de Xandão, mesmo sendo um protegido do presidente Temer. O magistrado terá dado dicas ao banqueiro, que tinha contratos milionários com o escritório de advocacia da mulher, sobre como fugir da detenção iminente.

Caia ou não Xandão, ganhe a eleição Lula, ou vença Flávio a 25 de outubro, todos já perderam, porque o Brasil, como um todo, foi novamente conspurcado, desta vez por um banqueiro criminoso de nome Vorcaro.

Assim como Vorcaro é o seu pai, Henrique, também envolvido no esquema, era o seu avô, Serafim, mas não era o seu bisavô Michele. Imigrado da Calábria, o jovem Michele decidiu, para que os filhos não fossem alvo de bullying no Brasil, mudar para Vorcaro o nome original da família, Porcaro, que vem da mesma raiz suína do verbo conspurcar.

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