As Avenidas Novas são uma das zonas mais centrais, procuradas e caras de Lisboa. Nascidas no final do século XIX como área residencial, são hoje uma zona moderna, com avenidas largas, edifícios de prestígio, comércio, restauração de referência, serviços, hotéis e universidades. Contudo, o estado de desleixo e imundice em que muitas das suas ruas se encontram não se compactua com a imagem que se criou desta up town lisboeta.Quem hoje caminha por algumas artérias das Avenidas Novas depara-se com uma realidade difícil de aceitar numa capital europeia que vive, em parte, da sua imagem. A calçada portuguesa, branca por tradição, está encardida por camadas sucessivas de sujidade. O chão, em muitos quarteirões é pegajoso, com manchas antigas, resíduos secos, restos de comida, folhas caídas, papéis, plásticos, beatas, embalagens e sacos acumulados junto a contentores e esquinas onde proliferam esquadrões de pombos, exércitos de baratas e pontuais ratazanas. Ervas daninhas crescem descontroladamente nos passeios, muitas das floreiras e canteiros parecem matagais de erva seca. O cheiro do ar torna-se nauseabundo, sobretudo nos dias quentes, quando a ausência de lavagem transforma os passeios em verdadeiros chiqueiros.As poucas papeleiras existentes são pequenas demais para a pressão diária de residentes, trabalhadores, estudantes e turistas, enchem rapidamente e transbordam. Quando uma papeleira fica cheia, o lixo cai para o chão, Lisboa é uma cidade ventosa por natureza, quando o lixo cai no chão rapidamente se espalha ao longo de quarteirões, o desleixo e degradação tornam-se gritantes. Quando o chão se habitua a receber lixo, convida mais lixo num círculo vicioso.As ruas, que deveriam refletir ordem, higiene e respeito pelo espaço comum, apresentam-se encardidas, ao abandono. Para os moradores, isto representa uma agressão diária à qualidade de vida, para os milhares de turistas que visitam Lisboa, é uma imagem desoladora de uma cidade bela, mas incapaz de cuidar das rotinas mais básicas. Vale sempre a pena recordar que, em tempos, as ruas eram lavadas com agulheta, muitas vezes semanalmente, a água corria para as sarjetas, arrastava poeira e resíduos, removia maus cheiros, devolvia dignidade. A lavagem das ruas não era um luxo, era um serviço básico de uma cidade civilizada. Hoje, pelo contrário, parece ter-se instalado a ideia de que basta varrer, mesmo quando é evidente que a sujidade entranhada e o cheiro não se removem com umas vassouradas. As lavagens tornaram-se um serviço extinto, pertencente a um passado cada vez mais longínquo de que, infelizmente, já poucos se recordam.Nas Avenidas Novas, a Junta de Freguesia tem propagandeado reforços de higiene urbana, equipas no terreno, cantoneiros, viaturas e prioridades políticas. A Câmara Municipal de Lisboa, por seu lado, afirma que a higiene urbana é fundamental para a qualidade de vida e que os espaços públicos devem ser varridos e lavados. Tudo isto é bonito no papel, mas a limpeza das ruas não é medida por propaganda nas redes sociais, mede-se pelo estado do passeio, pelo cheiro da rua, pela cor da calçada, pela rapidez com que o lixo desaparece e pela regularidade com que a água volta a passar onde a sujidade se acumula. Nada disto acontece. Este ano, nem São Pedro que, por volta do Santos Populares, costuma abençoar a cidade com chuva quis saber da Lisboa.A limpeza urbana não é um detalhe decorativo, é saúde pública, segurança, autoestima coletiva e respeito pelo património. A calçada portuguesa é frequentemente usada como imagem de marca de Lisboa, mas uma imagem de marca não sobrevive se for abandonada à sujidade e à falta de manutenção que, em muitos casos, obriga idosos a andar no meio da rua para não caírem nos infinitos desníveis e buracos. A cidade que cobra rendas e IMI pornográficos, taxas turísticas e impostos municipais tem a obrigação elementar de oferecer ruas limpas e bem conservadas.As Avenidas Novas não precisam de propaganda, precisam com urgência de manutenção, lavagem regular, papeleiras adequadas, passeios nivelados e bem calcetados, fiscalização eficaz e coordenação real entre Câmara e Junta. Precisam de uma rotina de limpeza que se veja, se sinta e se cheire. Lisboa sempre se cantou como a cidade onde “cheira bem, cheira a Lisboa”, hoje, em demasiadas ruas das Avenidas Novas, tristemente, a ironia impõe-se com violência: cheira mal, cheira a Lisboa. Isto devia envergonhar e arrepiar caminho a quem foi eleito e tem o dever de cuidar da cidade.