Assoberbado aos pés da letra

Tiago Fleming Outeiro

Diretor da Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas, Universidade do Algarve

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Em Portugal, temos uma geração de humoristas de qualidade que, podemos ouvir e ler quase diariamente. Muitos demonstram sagacidade e inteligência, e fazem-nos rir pela capacidade de nos mostrarem que, como seres humanos, todos cometemos lapsos e vivemos situações divertidas. Os bons observadores reparam nas idiossincrasias da natureza humana, brincam com elas, e riem deles próprios e dos outros. E isso é saudável, pois o mundo já é demasiado pesado.

Há artistas que usam as palavras para dizer qualquer coisa. E há aqueles que nos fazem perceber que, antes de servirem para dizer, as palavras já são, em si mesmas, uma extraordinária forma de acontecimento. Gregorio Duvivier, comediante Brasileiro, pertence a esta segunda categoria. Com ele, a língua não é apenas instrumento: é matéria de jogo, de pensamento, de espanto e, sobretudo, de riso.

Assisti no Rio de Janeiro à sua peça O céu da língua e fiquei impressionado. Não apenas pela inteligência do texto ou pela segurança do intérprete, mas pela forma como Gregorio consegue transformar um assunto aparentemente improvável - a própria língua portuguesa - num espetáculo vivo, divertido e surpreendente. Em palco, usando uma gola camoniana, e abrindo com uma estrofe d’Os Lusíadas, ele atravessa o português do Brasil e o português europeu, brinca com outras línguas, e mostra que falar é também habitar um território cheio de armadilhas, ambiguidades e encantamentos.

A gola, naturalmente, não é um simples adereço. É uma espécie de declaração de princípios. Há ali Camões, a solenidade da poesia, a memória de uma língua que atravessou oceanos. Mas há também a irreverência de quem sabe que nenhuma tradição se mantém viva se for tratada como peça de museu. Gregorio veste a história para poder brincar com ela. E brinca com seriedade - essa rara combinação que distingue o humor inteligente da mera piada.

É precisamente essa inteligência lúdica que encontramos em Aos pés da letra, outro livro que li este Verão. No livro, o autor retoma a obsessão de O céu da língua: observar como as palavras moldam aquilo que sentimos, pensamos e discutimos. O livro apresenta-nos uma combinação de rigor e humor em torno das curiosidades e esquisitices do idioma, uma declaração de amor à língua portuguesa e a muitas palavras que usamos todos os dias.

O livro não pretende ser um dicionário, obviamente, embora por vezes tenha o prazer da descoberta que associamos a um dicionário, pois cada palavra apresentada é desconstruída. Também não é um manual de linguística, embora revele, a cada passo, como a língua contém uma história de relações humanas, mudanças culturais e disputas de poder. É, antes, um convite para olhar de novo aquilo que julgávamos conhecer.

Uma palavra comum, quando observada por Gregorio, deixa de ser comum. Pode esconder uma contradição, uma viagem etimológica, uma mudança de sentido ou uma inesperada aproximação com outra palavra. O que parecia transparente torna-se misterioso. O que parecia banal ganha dimensão. E aquilo que usamos automaticamente - uma expressão, um substantivo, um modo de dizer - passa a exigir a nossa atenção.

Esse é um dos grandes méritos do livro: aguçar a nossa curiosidade. Numa época em que as palavras são frequentemente utilizadas como munição - para insultar, manipular, excluir ou simplificar, Gregorio lembra-nos que elas também podem ser brinquedos. Não brinquedos ingénuos, mas instrumentos de liberdade. Quem percebe a elasticidade da linguagem fica menos vulnerável aos discursos que pretendem apresentar o mundo como uma coisa fixa, sem ambiguidades nem alternativas.

O humor de Aos pés da letra não é o humor que humilha o outro, não é “ordinário”, nem aquele que precisa de elevar a voz para se impor. É um humor de observação, de precisão, e de desvio. Gregorio conduz-nos até uma palavra e, quando pensamos que já sabemos para onde vamos, abre uma porta lateral. A gargalhada chega porque a frase encontrou uma possibilidade que estava ali desde o princípio, mas que ainda não tínhamos visto.

Há também, no livro, uma forma muito particular de generosidade. O autor não trata o leitor como alguém que precisa de ser instruído, mas como um companheiro de jogo. Não diz: “Vou ensinar-vos a língua”. Sugere antes: “Vejamos juntos o que a língua anda a fazer”. Essa diferença é apelativa, e prende-nos. A linguagem não pertence apenas aos especialistas, aos gramáticos ou aos escritores. Pertence a todos os que a usam - e, por isso mesmo, todos podemos surpreender-nos com ela.

Talvez seja este um ponto de encontro feliz entre o palco e o livro. O Céu da língua tinha a presença física da voz, o ritmo, a pausa, a expressão corporal, a energia de um ator que, sozinho, enche o palco e transforma uma reflexão em acontecimento. Aos pés da letra oferece outro tipo de intimidade: a do leitor que pode parar, voltar atrás, reler uma frase e deixar que uma palavra continue a trabalhar dentro de si.

Do que li, a peça foi vista por centenas de milhares de espectadores e tornou-se uma celebração pública da língua portuguesa - o livro prolonga essa experiência numa forma mais silenciosa, mas não é apenas um suplemento do espetáculo. É uma obra com vida própria, capaz de chegar tanto a quem esteve na sala como a quem nunca teve oportunidade de assistir à peça.

Gregorio Duvivier é frequentemente apresentado, com razão, como comediante. Mas Aos pés da letra confirma que essa designação é insuficiente. Ele é um escritor atento, um observador das nossas manias verbais, um linguista, e um performer capaz de converter reflexão em prazer. A sua verdadeira especialidade talvez seja esta: fazer-nos rir no exato momento em que percebemos alguma coisa. E eu ri muito ao ler o livro.

O livro propõe que não aceitemos demasiado depressa as palavras que nos entregam prontas. Desconfiar dos lugares-comuns. Reparar no som, no ritmo, na origem e nas consequências daquilo que dizemos. E conservar, mesmo na idade adulta, a disponibilidade para descobrir que uma palavra pode ser maior - ou mais engraçada, ou mais perigosa - do que parecia.

Ler Aos pés da letra permite aproximarmo-nos das palavras com respeito, mas sem reverência excessiva; com rigor, mas sem perder o prazer; com inteligência, mas sem abdicar do riso. Gregorio sabe que a língua portuguesa é uma casa imensa. O que faz é acender as luzes, abrir algumas portas e convidar-nos a entrar – e aí, passamos a ver a casa de outra maneira, percebendo o quão rica ela é. E faz-nos sentir em casa.

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