As virtudes do centro político

Bernardo Ivo Cruz

Professor convidado UCP/UNL/UÉ

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O centro político não é um lugar de indecisão. É uma forma de exercer a política que reconhece a complexidade, respeita o pluralismo e concilia liberdade, justiça social e responsabilidade. A sua força não está em ficar a meio caminho, mas em escolher sem transformar o adversário em inimigo.

Moderação não significa ausência de convicções, compromisso não equivale a capitulação e diálogo não dispensa escolhas difíceis. Uma democracia precisa de alternativas, mas também de instituições respeitadas e de entendimentos duradouros.

O equilíbrio é uma das virtudes do centro. Não para conservar tudo como está, mas para compatibilizar objetivos. Liberdade e segurança, crescimento e coesão, inovação e proteção social não têm de ser escolhas mutuamente exclusivas. Governar é reconhecer tensões, definir prioridades e assumir os custos das decisões.

Outra virtude é a disponibilidade para escutar. Governar com uma maioria não é governar apenas para essa maioria.

O interesse público exige atenção a quem discorda e a quem tem menos voz. Negociar não diminui a autoridade democrática e pode reforçar a legitimidade das decisões. O compromisso vale quando resolve problemas sem apagar diferenças.

A lealdade institucional também conta. A separação de poderes, a independência da Justiça, a liberdade de imprensa e os direitos fundamentais não são obstáculos à eficácia governativa. São condições da sua legitimidade.

Nenhuma urgência justifica tratar as regras democráticas como um incómodo e devem ser defendidas no governo e na oposição.

O centro deve também ser reformista. Escolher as melhores soluções que o Estado e o mercado oferecem, sem excluir nenhuma por razões ideológicas, é pragmatismo. Há problemas que pedem intervenção pública, outros que beneficiam da iniciativa privada e muitos que exigem ambas. O critério deve ser a eficácia, a justiça dos resultados e a avaliação do que funciona.

Há, porém, uma contradição que o centro não pode ignorar.

Partidos do centro governaram muitas democracias hoje em crise de confiança. Nem todos os problemas que alimentam o populismo nasceram das suas decisões, mas alguns agravaram-se durante os seus governos. Defender o centro exige reconhecer responsabilidades. A moderação perde valor quando se transforma numa justificação para não mudar.

Quem não consegue pagar uma casa, obter uma consulta ou acreditar que o trabalho permitirá viver melhor não se satisfaz com discursos sobre estabilidade. A defesa das instituições é indispensável, mas a sua legitimidade depende também da resposta às angústias das pessoas.

Quando o centro confunde prudência com imobilismo, oferece aos populistas a oportunidade de se apresentarem como os únicos disponíveis para mudar alguma coisa.

O centro não pode presumir que representa uma maioria silenciosa, nem reclamar o monopólio da sensatez. As virtudes democráticas não pertencem em exclusivo a uma posição política. É preciso conquistar confiança com clareza, competência e coerência, aceitar o escrutínio e responder pelos resultados.

Reabilitar o centro não é pedir menos ambição à política. É exigir uma ambição diferente: transformar sem desagregar, proteger sem imobilizar, unir sem uniformizar. A resposta ao populismo não pode limitar-se à denúncia dos seus excessos. Tem de demonstrar que a democracia consegue melhorar a vida das pessoas. O centro não será relevante por estar entre os extremos, mas por saber para onde quer ir.